Entrevista

Jaqueline Cherulli fala sobre experiência como magistrada e diz que 'não esquecerá' Rondonópolis

Juíza que ganhou destaque pela atuação com as famílias e também na área eleitoral atuará em Várzea Grande a partir do ano que vem

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28 de Novembro de 2012, 14h05

Jaqueline Cherulli fala sobre experiência como magistrada e diz que 'não esquecerá' Rondonópolis
Jaqueline Cherulli fala sobre experiência como magistrada e diz que 'não esquecerá' Rondonópolis

Juíza ganhou reconhecimento nacional por ação que envolveu sociedade na discussão do processo eleitoralNascida em São José do Rio Preto (SP), em uma família sem tradição no meio jurídico, a juíza Eulice Jaqueline da Costa Silva Cherulli construiu uma sólida carreira e é considerada hoje uma referência entre os magistrados de Mato Grosso. Em quinze anos de magistratura, ela calcula já ter proferido cerca de 27 mil sentenças e gosta de destacar principalmente o trabalho feito nas Varas de Família.

Bonita, inteligente e de fala calma, a juíza costuma chamar a atenção pela discrição e serenidade - tanto na vida pessoal como na atividade profissional. Mas engana-se quem confundir isso com fragilidade. Ela já demonstrou firmeza em situações que fariam tremer muitos homens. Enfrentou interesses de gente poderosa e chegou a precisar de proteção policial depois de ser ameaçada por grileiros contrariados por suas sentenças. Mas nunca desistiu dos desafios e, até aqui, pode ser considerada uma vitoriosa.

Jaqueline Cherulli é católica praticante. Vai às missas regularmente e acredita que a fé em Deus, expressa na prática religiosa, pode ajudar a construir lares mais estáveis e uma sociedade melhor. No entanto, ela condena comparações e faz questão de deixar claro que ser juiz não é sinônimo de ser 'deus' na terra. "Não me sinto poderosa e nem fantasio o cargo. Sou apenas uma aplicadora da lei. Quem faz Justiça é Deus", afirma.

Atualmente Jaqueline comanda três varas e responde também pela 10ª Zona Eleitoral na Comarca de Rondonópolis. O trabalho é excessivo, mas não a impede de exercer também as atividades familiares ao lado do marido, Arnaldo, e do filho caçula, Lorenzo, 15. O outro filho, Artur, 20, cursa a prestigiada faculdade de direito do Largo de São Francisco(USP) e no momento está na Itália, participando de um programa de intercâmbio em Roma. "Acho que a opção dele pelo Direito de certa forma indica uma aprovação à mãe", comemora.

Na carreira como magistrada, ela já precisou atuar em vários municípios e agora, aos 46 anos e já no topo da carreira, se prepara para mais uma mudança. Em janeiro do ano que vem Jaqueline Cherulli assumirá a Terceira Vara Especializada de Família e Sucessões da Comarca de Várzea Grande. Ela solicitou a transferência e foi escolhida por merecimento. Será o início de um novo ciclo na vida dela e um momento de tristeza para os rondonopolitanos que aprenderam a admirar o trabalho desta mulher.

Na semana passada a Jaqueline recebeu a equipe de reportagem do Gazeta MT e falou sobre a mudança, a família e da experiência acumulada como juíza, cidadã e cristã. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

A vocação
Na minha família havia apenas uma prima formada em direito, mas acho que meu interesse pelo meio jurídico surgiu de forma natural e já focado na magistratura. Me formei em Direito em São José do Rio Preto e cheguei a exercer a profissão, mas nunca me encantei pela advogacia. Fiz Escola da Magistratura e do Ministério Público e estudei muito, sempre pensando nos concursos. Lembro que quando vim para Mato Grosso, em 1990, atuava Opção pela magistratura surgiu naturalmente e exigiu muito esforço até tornar-se realidadecomo assessora do Tribunal de Justiça e dedicava o tempo extra à preparação. A gente quase não saia, tínhamos pouco lazer. O meu segundo filho nasceu em 1992 e tinha apenas dez meses quando prestei o concurso que asseguraria minha entrada na magistratura.

Tive um início muito difícil, mas não me arrependo. Faço o que gosto e ensino aos meus filhos que quando há amor, independente da profissão, as coisas frutificam e acontecem.

O Início
Alta Floresta foi o primeiro município que atuei como juíza. Cheguei lá há 15 anos, no dia 18 de junho, data do meu aniversário. Eu e o doutor Milton Pelegrino dividíamos as Varas da Cidade e o principal problema era a falta de estrutura. Tive de comprar os móveis do gabinete e da sala de audiências, os computadores e pagava até o papel que usávamos para trabalhar. Eu ficava quase todo o tempo no Fórum e, para me ajudar, meu marido, que é engenheiro civil, desistiu do emprego que tinha para cuidar das crianças. Foi um início duro e o apoio dele foi fundamental para superar essa fase.

Depois de Alta Floresta fui enviada para Barra do Garças e, na sequência, para Rondonópolis. Ainda havia problemas de estrutura, mas a situação já era melhor.

A Justiça e o exercício da magistratura
Acho que a Justiça é um conceito divino. Só Deus pode fazer Justiça. Nós, magistrados, fizemos um juramento e temos o dever de garantir a aplicação das leis. Eu não me sinto poderosa e não fantasio o cargo. Sou realista, sei que as pessoas têm uma expectativa grande em relação aos juízes e esperam de nós um comportamento compatível com a função - inclusive nos momentos em que estamos de folga.

Como todas as pessoas sou emotiva, choro e me sensibilizo com os dramas da vida. Mas, aqui dentro não. No trabalho eu sou o 'Estado Juiz' e se me deixar envolver emocionalmente não cumprirei meu papel. As pessoas esperam de nós solução, e não comoção. Tenho isso firme em mim.

Por outro lado, defendo um Judiciário que esteja próximo da população. Por onde passei procurei sempre dialogar com as pessoas, promover palestras e outras formas de interação com a sociedade. Acredito que estabelecendo canais de comunicação com a sociedade, fica mais fácil fazer com que as pessoas entendam melhor o papel dos juízes e colaborem.

A situação do Poder Judiciário em MT
Houve um avanço muito grande em relação ao período em que iniciei minhas atividades como juíza. O Tribunal de Justiça investiu muito na ampliação e estruturação das comarcas, com destaque para o uso da tecnologia. Hoje somos modelo para o País nesta área. Aliás, a urna eletrônica nasceu aqui.

É claro que, no geral, ainda não temos um quadro satisfatório. Há restrições ainda em vários aspectos. Mas, se analisarmos bem, caminhamos muito. Penso que a satisfação pode ser verificada de duas formas. Primeiro não vemos advogados batendo na porta de juízes para saber de processos. Por outro lado houve um aumento na demanda, as pessoas percebem que há resolutividade e procuram respaldo no Judiciário.

Atuação na Justiça Eleitoral
Procurei levar para a Justiça Eleitoral a filosofia de trabalho que sempre adotei. Não fiz nada de novo, apenas adequei projetos que já existiam no Tribunal Superior Eleitoral para nossa realidade. Organizamos o projeto 'Voto Consciente' e fomos para as comunidades discutir diretamente com a população a importância do processo eleitoral. A população acreditou e viu que era possível mudar e acho que isso garantiu o sucesso da iniciativa, que teve reconhecimento nacional.

Nesse trabalho foi fundamental o apoio que recebemos do então presidente do TRE-MT, desembargador Rui Ramos. Ele acreditou na nossa proposta e não mediu esforços para auxiliar o desenvolvimento do projeto, que depois foi levado para outros municípios com igual sucesso. Atuamos de forma preventiva, a população recebeu informações sobre a legislação e pode esclarecer dúvidas sobre todo o processo eleitoral.

Também conseguimos implantar aqui o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que, acredito, foi um dos grandes benefícios que proporcionamos à população.

Para Jaqueline, mulheres e homens são essencialmente diferentes e nunca haverá igualdadeO papel das mulheres

Houve uma 'mulherização' do mundo, com uma ampliação grande do espaço ocupado pelas mulheres. Mas acho que nunca teremos uma condição de igualdade com os homens, e isso não é ruim. Deus nos fez essencialmente diferentes e não dá para negar isso. Há tarefas, atribuições e desejos que são exclusivos das mulheres. Por mais que nossos maridos sejam companheiros e afetuosos, temos papéis diferentes e complementares na relação familiar. Tem pessoas que se esquecem disso, o que gera muita confusão. Mas o fato é que as mulheres não querem ser transformadas no 'homem da casa'.

Vida Pessoal

Tenho uma vida tranquila. Sou católica praticante, ministra de Eucaristia e coordenadora de grupo de oração. Respeito as outras crenças e acho que a fé religiosa tem um papel importante em nossas vidas. Ela pode ajudar muito em todos os aspectos, inclusive, na estruturação familiar.

Em casa conto muito com a compreensão da família, que soube compreender as exigências e limitações impostas pela profissão. Procuro evitar que o desgaste físico e psicológico contaminem nossa relação, buscando sempre dar mais qualidade ao nosso convívio em casa. Acho que estou no caminho certo, pois um dos filhos optou pela mesma carreira.

O futuro
Adoro Rondonópolis, tenho muitos amigos e não perderei o contato com a cidade. Decidi pedir a transferência para Várzea Grande para podermos ficar mais próximos dos meus pais e também dos pais do meu esposo. Já estive lá olhando as instalações e estou com uma excelente expectativa. Me apresentarei em janeiro e, num primeiro momento, quero estabelecer contatos e sentir as necessidades da população. Minha filosofia de trabalho continuará a mesma. Acho que juiz não deve ficar trancado em gabinetes, precisa buscar o que pode fazer para melhorar a vida da comunidade.