E assim caminha a humanidade…
29 de Abril de 2013, 10h07
Ouvi um dia que se conhece um povo por suas prisões. Achei um absurdo à época, mas, hoje começo a repensar...
Faço isso ao me deparar com a realidade estampada nos "barracos" deslizando, em encostas onde casas não deveriam estar, mas ali estão. Casas construídas nos locais socialmente rejeitados e ocupados por aqueles que trazem consigo o estigma de estar a margem social. Uma margem que se constitui de baixa renda, baixa instrução, baixas oportunidades, e diante de tantas baixas, baixa-se a vida, vivendo em um território que sinaliza morte, seja ela por catástrofes naturais ou brigas eventuais.
Frente a essa situação, uma sociedade muda, se manifesta após as baixas. E se pergunta: "Como isso aconteceu?" "Como deixaram acontecer?" E por fim, ouvem-se algumas afirmações: "Também, olha onde foram morar..."
Volto os olhos aos presídios de nosso país, vejo presídios e cadeias em constantes falsas reformas. Inicia-se, coloca-se a placa e não se termina nunca. Retira-se o teto para reforma e como há laje, o teto não vem e o prédio segue coberto apenas por ela. Em dias de chuva há goteiras por todos os lados, a agua escorre pelas paredes e pelos corredores. Vê-se então presos molhados e agentes (carcereiros), senão molhados, agrupados em locais onde a umidade não impera.
Falta saneamento básico aqueles? As celas têm privadas entupidas e sem manutenção. Falta água lá? A agua é racionada cá e a fonte é a torneira do banheiro. Vende-se droga lá? Vende-se droga (entrada, colchão, roupa, comida, "jega"(cama)) aqui.
Falta tudo aqueles? Falta tudo aos "reeducandos" do sistema. Falta escola lá? Falta escola cá. Batem nos filhos lá? Batem nos presos cá. Tem-se uma guerra por poder lá? Tem-se uma guerra por poder cá. Tem "crentes" lá? Tem crentes cá. Tem "doidos" sem tratamento lá? Tem doidos sem tratamento cá.
Ao realizar esse breve exame comparativo, concluo infelizmente que se conhece um povo por suas prisões...
E então, me lembro do susto de Manuel Bandeira:
"O bicho, meu Deus era um homem."
Estevan de Melo Ferrari é diretor do site GazetaMT