A seleção que amávamos
30 de Agosto de 2013, 07h07
Eram dez da manhã, o jogo do Brasil estava começando, a cidade estava parada em torno da TV, mas isto lá em casa pouco efeito tinha, a família era evangélica bem conservadora e se orgulhava de não se misturar com o "mundo".
O único "mundano" ali era eu, tinha apenas 12 anos e era fanático por futebol, por uma feliz coincidência, bem na hora do inicio do jogo fui escalado para levar o almoço de uma tia que trabalhava no hospital, como enfermeira.
Para qualquer outro adolescente isto seria um castigo, ter que sair no momento do início do jogo, para mim foi a suprema alegria, pois se ficasse em casa eu poderia acompanhar a partida apenas pelos fogos de artifícios caso houvesse algum gol, não tínhamos televisão.
Planejei tudo, iria o mais rápido possível levar o almoço e na volta assistiria na casa do Kazu.
Na ida, antes do meio da caminho até o hospital, ouvi o Luciano do vale que na época era o "Galvão da Globo", narrar quase em tom de lamento o gol da Itália, pensei comigo tem problema não, o Brasil agorinha marca um.
Estava certo, o camisa 9 brasileiro deu uma finta seca e bateu entre o goleiro e trave, empate do Brasil, aquele time era extraordinário, levar gol, até levava, mas era também uma máquina de faze-los.
O ataque comandado pelo Dr. Sócrates, meio campo Zico e a zaga, bem, a zaga até que era boa, mas, não era o foco daquela seleção se defender. O Técnico Telê Santana tinha a filosofia de que time retranqueiro só retardava a derrota, mas ela viria.
Com a certeza de que o time era imbatível a torcida não se importava que o time levasse gols, sabia que o ataque daria um jeito, imbuído deste raciocínio eu flutuava pelas ruas com duas coisas na cabeça a marmita e a certeza que o Brasil golearia a Itália.
Cumprida a missão "almoço da tia", fui direto para a casa do Kazu, um japonês que morava próximo a minha casa, tinha TV colorida e ainda gravava os jogos em fitas K7 para escutar depois.
O Brasil jogava bem como sempre, mas o jogo não estava fácil, a Itália ganhava de 2X1 e já estava na metade do segundo tempo, aquilo já estava incomodando, de repente, goooolllll, o Brasil empatava o jogo, Dino Zofi o "goleiraço" Italiano, fora Batido pela bomba do Rei de Roma, era assim que chamavam o Falcão, jogador brasileiro que jogava na Roma da Itália.
Pensei, agora é só esperar um pouquinho e vai vir o gol da vitória, veio... mas não foi do Brasil, o até então apagado jogador Paulo Rossi que nada fizera na copa, marcou o terceiro gol dele naquela partida e selava a participação brasileira na copa da Espanha.
Ninguém acreditava, fomos desclassificados tendo a melhor time, coisas do futebol diziam uns, culpa do Cerezo que perdeu a bola de forma infantil protestavam outros.
Na verdade "todo mundo" estava com um "entalo" no peito, sem acreditar no que havia acontecido.
Acabrunhado e chorando baixinho, fui pra casa, preocupado, afinal, se me vissem chorando como eu iria explicar?
O Brasil, perdeu a copa, mas ninguém que viu aquela seleção jogar, esquece aquele time.
A seleção de 82, como é chamada, também poderia ser batizada como a seleção que amávamos, pois de lá para cá já fomos campeões mundiais duas vezes e ninguém esquece as façanhas do time de Telê.
Mais de 30 anos se passaram, nunca pensei que fosse me decepcionar novamente tanto com uma copa do mundo de futebol, estava errado, ano que vem a copa será no Brasil e antes do time entrar em campo o Brasil já perdeu, o país foi derrotado nos gabinetes onde o futebol foi usado como pilastra de sustentação para o maior "desvio de finalidade" do dinheiro público, estádios orçados em 700 milhões estão com custo final de quase dois bilhões, é ou não é para chorar?