OPINIÃO

Uma vez na educação, para sempre na educação

por Alan Porto

31 de Março de 2026, 06h00

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Divulgação


Ao encerrar meu ciclo como secretário de Estado de Educação de Mato Grosso, levo comigo a certeza de que, em mais de sete anos de gestão, vi a educação pública crescer pelo esforço coletivo de quem acredita no poder transformador da escola.
Deixo a Seduc-MT nesta terça-feira, 31 de março, com o coração atravessado por sentimentos que só a vida pública – quando vivida com propósito – é capaz de produzir: gratidão, responsabilidade, saudade e, acima de tudo, humildade.
Humildade porque, ao olhar para trás, compreendo que este período foi, para mim, muito mais de aprendizado do que de ensino.
A educação tem essa força rara. Ela nos obriga a abandonar certezas prontas e a escutar mais. Escutar o professor, o diretor, o técnico, a merendeira, o pai, a mãe, a comunidade. Escutar o silêncio das escolas esquecidas, sem ar-condicionado e com paredes de lata, e, principalmente, a esperança teimosa que nunca deixou de existir nelas: nossos estudantes.
Ao longo dessa caminhada, aprendi que nenhuma política pública faz sentido se não tocar o chão da escola. E foi justamente ali que mudamos para melhor. Hoje, temos salas mais dignas, unidades reformadas, escolas novas surgindo onde antes havia precariedade, quadras e piscinas se transformando em espaços de convivência, cidadania e pertencimento.
Até 2025, a Seduc registrou 50 escolas novas entregues, sendo 7 CEIs; 66 em construção, sendo 11 CEIs; 32 CEIs planejados para 2026/2027; 105 escolas reformadas, com entrega concluída; e outras 96 em obras, além do avanço de 48 quadras poliesportivas entregues e de outras 39 em obras. Foi um movimento que buscou não apenas ampliar vagas, mas também melhorar a qualidade de vida de estudantes, professores e suas famílias.
As escolas, no entanto, não cresceram apenas em paredes, telhados e estruturas. Cresceram, acima de tudo, quando o pedagógico passou a ocupar o centro das decisões. Cresceram quando o planejamento deixou de ser um rito burocrático e se afirmou como uma escolha, um compromisso com o futuro, materializado no Programa Educação 10 Anos.
Cresceram quando o Estado decidiu medir, acompanhar, corrigir rotas e apoiar, de forma diferenciada, quem mais precisava de apoio pedagógico. Construímos uma rede mais consistente, mais orientada por evidências, mais comprometida com a aprendizagem real.
Esse esforço cresceu com o fortalecimento do Sistema Estruturado de Ensino, com a formação continuada, as avaliações permanentes, a recomposição da aprendizagem e o entendimento de que ensinar bem exige método, acompanhamento e coragem para enfrentar desigualdades.
Também vi a tecnologia deixar de ser um enfeite de discurso e passar a ocupar espaço no cotidiano escolar. Quando levamos conectividade, plataformas digitais, Chromebooks, Smart TVs, materiais estruturados e novas metodologias para a rede, não estávamos apenas modernizando os prédios.
Estávamos dizendo aos nossos estudantes que a escola pública também pode dialogar com o presente e preparar-se para o futuro. Então, a educação passou a dialogar com o mundo em transformação, sem perder sua essência humana. Tecnologia, para nós, nunca foi um fim em si mesma. Foi uma ferramenta para ampliar horizontes, despertar vocações e tornar a aprendizagem mais significativa, inclusive por meio do reforço do Ensino Técnico Profissionalizante, que também atendeu às demandas do agronegócio.
Houve ainda pessoas que fizeram a educação acontecer todos os dias. Sabíamos que não existiria avanço consistente sem professor respeitado, servidor reconhecido, carreira fortalecida e ambiente institucional minimamente justo.
A nomeação de 1.230 professores concursados e o pagamento de 215 milhões de reais em Gratificação por Resultado a mais de 36 mil servidores expressam, cada um à sua maneira, a compreensão de que a qualidade do ensino também depende de estabilidade, reconhecimento e compromisso compartilhado. Cuidar da educação é, igualmente, cuidar de quem sustenta a escola em pé.
Talvez uma das maiores lições deste período tenha sido perceber que a educação pública não se transformaria por vontade isolada, mas sim quando se tornasse obra coletiva. E foi exatamente isso que o Regime de Colaboração nos ensinou. Embora os anos iniciais do ensino fundamental sejam responsabilidade dos municípios, a Seduc manteve apoio permanente aos 142 municípios, entendendo que a alfabetização, a aprendizagem e o futuro das crianças não podem ser fragmentados por fronteiras administrativas.
É por isso que os resultados da alfabetização têm, para mim, um significado tão profundo. Eles não representam apenas números melhores; representam infâncias protegidas pelo direito de aprender no momento certo.
Em 2025, Mato Grosso alcançou 75% no indicador de alfabetização de crianças até o 2º ano do ensino fundamental, superando as metas do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e até mesmo o patamar previsto para 2028. A trajetória foi clara e consistente: saímos de 22% em 2021 para 42% em 2022, 56% em 2023, 61% em 2024 e 75% em 2025. Esse resultado levou o Estado ao sexto melhor desempenho do país e confirmou que o Programa Alfabetiza MT, construído em regime de colaboração, acertou ao colocar a aprendizagem no centro das prioridades.
Esse avanço, porém, não está isolado. Ele faz parte de um projeto educacional mais amplo, que estabeleceu metas e decidiu persegui-las com responsabilidade. Os resultados oficiais mostram que Mato Grosso também avançou no Ensino Médio, saltando da 22ª para a 8ª posição no ranking do MEC. Nunca tínhamos visto tantos alunos da rede aprovados no Enem como primeiros colocados em Medicina, Engenharia e Direito, para citar apenas alguns cursos. Também reduzimos a taxa de analfabetismo das pessoas com 15 anos ou mais para 3,8%, superando, em 2024, a meta prevista para 2025.
São indicadores que evidenciam movimento, direção e consistência. Mais importante do que celebrar posições é reconhecer que elas significam mais oportunidades, mais dignidade e mais futuro para quem depende da escola pública.
Também guardo comigo a imagem de uma escola que passou a ser, cada vez mais, um espaço de acolhimento. Um lugar melhor para os estudantes aprenderem, para os servidores trabalharem e para as famílias se sentirem parte. Uma escola mais segura, mais organizada, mais bonita, mais viva.
Quem vive a rotina educacional sabe que a qualidade de vida no ambiente escolar não é detalhe. Ela interfere no vínculo, na permanência, no bem-estar e até na disposição para acreditar. Cada escola entregue, reformada ou equipada foi, no fundo, uma mensagem concreta à sociedade de que seus filhos importam, seus professores importam, sua comunidade importa.
Saio desta função sem a pretensão de ter concluído uma obra. Embora ainda haja muito por fazer e muito que eu desejava ter realizado, construímos bases sólidas para assegurar a continuidade desse trabalho em um futuro próximo. Afinal, educação é travessia. Sempre haverá mais a fazer, a corrigir, a aperfeiçoar e a sonhar. Mas saio com serenidade para afirmar que Mato Grosso avançou, e avançou, porque houve empenho coletivo.
Nada disso pertence a ninguém. Pertence aos profissionais da educação, aos municípios parceiros, às equipes técnicas, aos estudantes que resistiram, às famílias que confiaram, ao governador Mauro Mendes e ao vice-governador Otaviano Pivetta, que priorizaram investimentos, e a todos os que compreenderam que transformar a educação pública exige persistência e visão de longo prazo.
Levo comigo a convicção de que estar na educação foi um dos maiores privilégios da minha trajetória. Porque foi nela que reaprendi a dimensão do serviço público. Foi nela que percebi que liderar não é ocupar um lugar de fala acima dos outros, mas construir caminhos com os outros. Foi nela que confirmei algo que hoje digo como verdade íntima: uma vez na educação, para sempre na educação.
(*) Alan Porto é engenheiro civil, esposo e pai de três filhos. Atua no setor público desde 2010. Chegou à Seduc-MT em 2019, na função de secretário executivo, até novembro de 2020, quando assumiu o posto de secretário de Estado.