SAI DA FRENTE
Reunião tumultuada rende revolta de pais de músicos jovens
Prefeitura interrompe projeto e alega que recursos vão para outras áreas
31 de Maio de 2017, 09h22
Em reunião tumultuada na Câmara de Vereadores na noite desta terça-feira, 30, pais de integrantes da Orquestra Sinfônica Jovem, secretários municipais e vereadores debateram a questão do projeto em parceria com o Instituto Ciranda estar a ponto de ser encerrado.
Os integrantes da Orquestra, que atende cerca de 350 jovens, participam do projeto desde 2015 e, com a parceria, foram descobertos vários talentos, comprovados em apresentações públicas da Orquestra.
O secretário de Cultura, Humberto Campos, disse que a proposta é remodelar o projeto. "Temos como transformar esse projeto para que atinja mais jovens, mas é preciso reduzir os custos", argumentou Humberto.
Já a secretária de Ação Social, Márcia Rotili, disse que decidiu transferir o recurso da Orquestra para a construção de uma unidade de Centro de Referência no bairro Alfredo de Castro. "Quando eu assumi a secretaria eu nem conhecia o projeto da Orquestra e então, como o Alfredo de Castro é um bairro carente, decidimos levar o recurso pra lá".
A declaração da secretária gerou revolta entre os participantes da reunião, proposta pelo vereador Fábio Cardozo (PPS), para tentar reconstruir o programa da Orquestra no moldes que sempre funcionou, em parceria com o Instituto Ciranda.
Além da determinação em transferir o recurso, a secretária Rotili disse que está trabalhando para encontrar uma forma mais barata para manter um programa de incentivo à cultura para as crianças.
Antonio Sérgio Fernandes, pai de uma integrante da Orquestra ficou irritado com as declarações da secretária. "Dizer que acabou com uma parceria que nem conhecia é um absurdo. Dizer que não conhecia o projeto é sinal de que a equipe de transição deste prefeito não trabalhou direito. Gastar R$ 300 mil na realização de um carnaval, onde se viu bebidas e atitudes indecentes em detrimento de manter uma Orquestra Sinfônica é uma vergonha. Estou indignado com mais essa demonstração de que aqui ninguém briga em favor da arte e da cultura como meios para manter a garotada longe das drogas, da bandidagem das ruas e mais perto de um futuro melhor", desabafou o pai de Gabriele de Souza Silva Fernandes, violinista.
Para Luciana de Almeida Santos, mãe de Guilherme de 13 anos que toca trombone de vara, a falta de sensibilidade da administração é revoltante. "Meu filho tem deficiência e a Orquestra foi o caminho para a socialização e a própria aceitação. Meu filho aprendeu a tocar trombone e se sente valorizado com a participação na Orquestra. Assim é com todos os integrantes e seus familiares. Estão destruindo sonhos, destruindo a cultura dessa cidade", falou Luciana.
Denúncias de irregularidades
Para tentar acalmar os ânimos dos participantes da reunião, o secretário Humberto disse que a princípio terminar com a parceria teria um bom motivo. "Constatamos irregularidades na parceria com a prefeitura e o Instituto Ciranda. Precisamos sanar essas irregularidades".
Questionado sobre 'quais irregularidades' seriam apontadas, o secretário ficou perturbado e apontou erros na apresentação da prestação de contas apresentada em fevereiro de 2016. Na época, o secretário de Cultura era Luciano Carneiro, que também estava presente. Luciano se manifestou. "Tivemos sim problemas na apresentação do relatório, mas em seguida foi refeita a documentação e ficou tudo certo. Na verdade nem eram irregularidades e sim erros. Depois de tudo solucionado o projeto poderia sim retomar as aulas e o investimento, que afinal, é metade do que o município de Nova Mutum investe (R$ 800mil por ano) e bem menor que Campo Verde destina ao projeto (R$ 500 mil). Me parece simplesmente falta de vontade".
Outra questão levantada foi a construção de um Centro de Referência em Assistência Social - Cras, no Alfredo de Castro com os recursos da Orquestra, o que seria uma insanidade. "O bairro não está regularizado e não pode receber recursos federais ou estaduais. Não pode abrigar nenhum programa federal, como o Cras, porque não é um loteamento, não tem reserva ambiental, não tem projeto, não é legalizado, aliás, continua sendo uma área invadida, oficialmente falando", reforçou o vereador Fábio. 
Contradições
O vereador Fábio Cardozo, que promoveu o debate, disse que 'comprou' a briga com a intenção de trazer de volta a parceria e o projeto. "Nós precisamos de informações concretas. Dizer que o projeto está parado porque custa caro e propor aumentar o número de crianças beneficiadas é contraditório. Fazer um novo programa, sem a estrutura de profissionais formados e prontos para ensinar e reger uma Orquestra, também não convence. Se é para acabar com a parceria, está na hora de assumir o que realmente quer e deixar a briga política de lado, já que este é um projeto social e cultural".
O vereador Sidnei Fernandes (PDT) também se manifestou na reunião. "Se o prefeito diz que o projeto é ótimo, que quer ampliar e investir, porque ainda não começaram as aulas? Me parece bem contraditório. Estamos junto com estes pais e vamos trabalhar para que a Orquestra volte a encantar com suas apresentações, independente do apoio da prefeitura".
Por fim, houve uma manifestação de revolta dos pais que abandonaram o auditório da Câmara de Vereadores antes do encerramento da reunião afirmando que se a prefeitura não quer ajudar, precisa tratar de não atrapalhar. "Temos na iniciativa privada empresas interessadas em manter a Orquestra em parceria com o Instituto Ciranda. A prefeitura só precisa sair da frente e deixar que a cultura funcione sem a influência negativa do município",