OPINIÃO
Acordo Mercosul–União Europeia: menos cotas, mais estratégia brasileira
04 de Fevereiro de 2026, 06h00
O debate sobre o acordo Mercosul–União Europeia foi dominado por uma narrativa defensiva: cotas para carne, limites para açúcar, restrições ao etanol. A discussão pública concentrou-se nas salvaguardas europeias como se o Brasil estivesse diante de um bloqueio disfarçado.
Mas essa leitura é parcial. O verdadeiro impacto do acordo não está no número de toneladas autorizadas. Está no que ele pode provocar dentro do mercado agro brasileiro.
O impacto real no agro interno
A União Europeia não é o principal destino das exportações agrícolas brasileiras. China e Ásia têm peso maior em carnes e grãos. Isso significa que o efeito direto das cotas europeias sobre o volume total exportado é relativamente limitado. O que muda não é a quantidade, mas o padrão.
A Europa funciona como referência regulatória global. Suas exigências de rastreabilidade, controle sanitário e critérios ambientais tendem a se tornar benchmark internacional. Atender a esses requisitos não é apenas acessar um mercado específico, é elevar o nível de organização e governança da cadeia produtiva. Isso gera efeitos internos consistentes:
-Produtores mais estruturados ganham vantagem competitiva.
-A formalização tende a aumentar.
-A gestão e o controle de qualidade tornam-se diferenciais estratégicos.
O agro brasileiro já é altamente produtivo. O acordo pode torná-lo também mais sofisticado e integrado.
Quanto ao receio de que exportações ampliadas reduzam a oferta interna e pressionem preços, é importante lembrar que o Brasil é estruturalmente superavitário em alimentos. O mais provável é uma segmentação maior: produtos premium direcionados à exportação e grande parte da produção mantendo abastecimento regular do mercado doméstico.
Trata-se de especialização, não de escassez. As salvaguardas europeias são resultado de dinâmicas políticas internas do bloco. O desafio brasileiro é essencialmente econômico e estrutural.
O produtor nacional convive com crédito mais caro do que concorrentes globais, infraestrutura logística desigual, complexidade tributária e insegurança regulatória. Esses fatores afetam margens de forma muito mais relevante do que qualquer limite de cota.
Se o acordo vier acompanhado de melhorias no ambiente doméstico — infraestrutura, segurança jurídica, simplificação tributária e acesso a financiamento competitivo — o agro poderá ampliar valor agregado, não apenas volume exportado.
Hoje, o Brasil é extremamente eficiente na produção primária. O próximo passo natural é aprofundar a industrialização da cadeia: alimentos processados, biocombustíveis avançados, bioquímica, proteínas com maior grau de transformação.
A integração com a União Europeia pode facilitar esse movimento, mas ele depende sobretudo de decisões internas. Há também um fator relevante do ponto de vista macroeconômico: previsibilidade institucional.
Um acordo com a União Europeia sinaliza estabilidade de regras no longo prazo. Isso tende a reduzir percepção de risco e estimular investimentos em tecnologia agrícola, armazenagem, logística e transformação industrial. Capital mais acessível e ambiente regulatório previsível são elementos centrais para ampliar a competitividade do agro brasileiro.
Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e reorganização das cadeias produtivas, diversificar parcerias comerciais fortalece a posição estratégica do país. O acordo, portanto, vai além das cotas. Ele pode servir como instrumento de elevação de padrão produtivo, fortalecimento institucional e ampliação de competitividade.
No fim, a questão central não é apenas o volume autorizado para exportação. É como o Brasil utilizará esse acesso para consolidar seu agro como setor cada vez mais moderno, eficiente e integrado às cadeias globais de maior valor agregado.
Por Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio – Italcam, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/fabio-ongaro-37259226/
Sites: www.energygroup.com.br