ENTREVISTA EXCLUSIVA

Tenente Coronel Maurício Domingues defende nova filosofia dentro e fora da PM

Comandante avalia período de greve no Estado e números frente ao 4º Comando Regional de Polícia

por Robson Morais

04 de Julho de 2016, 11h25

Tenente Coronel Maurício Domingues defende nova filosofia dentro e fora da PM
Tenente Coronel Maurício Domingues defende nova filosofia dentro e fora da PM

Aos 43 anos de idade, Maurício Domingues é Tenente Coronel da Polícia Militar de Mato Grosso (PM). Comandou o 1º e o 3º Batalhão da PM na capital do Estado e há pouco mais de quatro meses segue frente ao 4º Comando Regional de Polícia, sede também do 5º Batalhão de Polícia de Rondonópolis. Nesta entrevista exclusiva, o comandante falou ao GazetaMT sobre a greve no Estado, reforço no efetivo, números da violência e defendeu urgência na mudança de mentalidade dentro e fora da corporação. Nova filosofia, ainda esbarrada, segundo ele, nos que insistem em optar pela rejeição.

A entrevista ocorreu na sede do GazetaMT na última semana. Nesta segunda-feira (4), o Tenente Coronel Maurício deu início às suas férias, e deverá retornar ao posto nos próximos dias. Antes da retirada tratou em Cuiabá de uma reunião junto ao Comando Regional e Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado visando aumentar o efetivo em Rondonópolis durante o período de festividade que se aproxima com mais uma edição da feira agropecuária Exposul, que ocorre em agosto no Parque de Exposições da cidade. Confira abaixo os principais tópicos da entrevista:

GazetaMT - Uma nova polícia nas ruas

Foto: Luan Dourado/GazetaMTTen. Cel. Maurício: Assim que o novo Comandante Geral assumiu ele fez uma reunião com Comandantes Regionais para traçar metas, o que fazer e como fazer. Além do serviço operacional que temos, foi proposta uma interação maior com a população. Chegar mais perto e ouvir mais as pessoas nas ruas, saber o que querem e precisam. Nosso feedback é isso.

Não adianta ficar no quartel sem saber o que está realmente acontecendo nas ruas.  E quem nos dá essa informação é a população. Por isso fizemos uma aproximação maior com os Conselhos de Segurança Pública (Consegs). Um trabalho ao encontro das operações que nós fizemos e ainda vamos fazer.

Gazeta MT - Rejeição a este novo modelo de trabalho dentro da própria polícia

Ten. Cel. Maurício: (Rejeição) Sempre tem e sempre vai ter, e por quê? Porque cada cabeça pensa de um jeito, é difícil mudar uma mentalidade, é difícil se enquadrar numa nova filosofia.  Quem não se enquadra, a tendência é sair dela. Ser tirado do contexto da situação. Principalmente quanto aos policiais mais antigos.

É difícil mudar a mentalidade. Mas acho que aos poucos, devagar, entendendo como as coisas funcionam e vão funcionar, tudo tende a melhorar.

 

GazetaMT - Sobre as operações

Ten. Cel. Maurício: Importante salientar que as operações são divididas em duas fases. Existem as que já vem direcionadas pelo Comando Geral (essas visam o Estado inteiro) e tem as operações que nos mesmos aqui planejamos de acordo com os índices de violência. Escolhemos os bairros de acordo com o dados que temos a atuamos em cima desses índices.

Quando os números caem numa região de operação, automaticamente mudamos o local. A tendência do criminoso é sempre migrar de acordo com a facilidade e oportunidade para cometer crime. É a briga do gato com o rato.

A Polícia Militar atua na prevenção, até por isso ela anda fardada. Nosso foco é o ostensivo fardado, trabalhando na prevenção ao crime. Se houve um crime, em tese, automaticamente, nós falhamos. A partir daí é caso para a Polícia Civil. Por isso vamos com viaturas e tudo o mais, para trazer a prevenção e a segurança que a população precisa.

 

GazetaMT - Sobre os patrulhamentos

Ten. Cel. Maurício: Trabalhamos com dados. Por isso sou taxativo em algumas situações quanto ao registro do Boletim de Ocorrência (B.O). Muitas pessoas reclamam dos índices em seus bairros, mas esses números não chegam até nós porque a população não registra. Quando vamos fazer o levantamento sobre os locais onde precisa de reforço na segurança os números não estão lá, não tem como saber. Em casos como esse, o que me resta fazer é colocar meu policiamento em outro bairro, cujo banco de dados mostra que existe índice de periculosidade.

Por isso a população tem que entender a importância do registro. Esse pensamento de que não vai dar em nada tem que mudar. É com o registro que polícia se direciona. Esse pensamento tem que mudar. Se der trabalho ir na Delegacia, faça online. Não importa, mas registre. São números que orientam todo o nosso trabalho.

 

GazetaMT - Sobre o patrulhamento aéreo

Ten. Cel. Maurício: O Águia (helicóptero da PM) tem uma agenda já programada. É preciso entrar em contato com a SSP e de acordo com a disponibilidade ele é encaminhado para Rondonópolis. Neste anos já tivemos mais de cinco visitas e operações que incluíram nosso apoio aéreo. Acho que em nenhum outro momento a cidade teve uma presença tão forte do efetivo aéreo assim.

Nós estamos trabalhando para que a aeronave venha mais vezes até o fim do ano, mas depende da agenda. Temos três aeronaves no Estado, que atuam em todo o território. Minha intenção é trazer a para eventos como a Exposul, mas dependemos desta agenda. Não podemos esquecer que toda aeronave tem o período que pode voar e o de manutenção e revisão, o que custa caro e é arcado pelo Estado. Também gostaria de ter a cavalaria na Exposul de Rondonópolis. Tudo depende da disponibilidade.

 

GazetaMT - índices da criminalidade em Rondonópolis

Ten. Cel. Maurício: Desde quando eu assumi, que é o que me interessa, num balanço geral todas as modalidades de crime caíram. Tivemos queda nos números de roubos e furtos, na média em 33%. Homicídios caiu 38%. Há meses em que aumenta e outros em que caem, mas trabalhamos com a média. Um trabalho de quatro meses, de formiguinha e complexo. Requer policiamento, informações...

Pegando pela média, os números mostram que a tendência é de queda. Importante salientar que os homicídios, cerca de 90% são execução, briga entre os próprios criminosos e entorno de entorpecente, ou crime passional, motivação de ciúmes e briga de relacionamento. São a maioria. Muito pouco se vê com relação a crimes por reação a assaltos, por exemplo. Não temos visto, não em nossa região. Latrocínios, por exemplo, tem índices muito baixos.

 

GazetaMT - Sobre a greve no Estado

Ten. Cel. Maurício: A PM não entra em greve. Não podemos fazer greve, isso é Lei. Por isso o policial militar em nenhum momento se absteve de trabalhar, e inclusive dobramos o patrulhamento. Trabalhamos por nós e pelas categorias que entraram em greve. Os números mostram isso.

Agora que todos estão voltando nossa ideia é não tirar o pé, mas sim triplicar com a ajuda e reforço destes que estrão voltando da greve. O trabalho não foi prejudicado, talvez o registro dos B.O tenham sido atrapalhados, mas nosso trabalho foi além da carga.

 

GazetaMT -  Perspectivas de investimentos

Ten. Cel. Maurício:  Estamos com um curso de formação e 134 soldados. Para setembro serão novos profissionais para a região Sul. Serão distribuídos nas localidades. Quantos vão ficar aqui não dá pra saber, existe um estudo e ainda não sabemos quantos irão se formar. Precisamos chegar ao final do curso e então dividir.

 

GazetaMT - O que ainda é desafio na PM de Rondonópolis

Ten. Cel. Maurício: Mudança de mentalidade, quebra de filosofia. Da PM com a PM e da PM com a população. As pessoas tem que nos ver como um braço amigo, e não um órgão ditatorial. Nosso papel é estar ao lado da população.

Quem está à margem da lei, daremos a lei. Quem é de bem, estará ao nosso lado. Nosso engajamento é justamente nessa nova filosofia.

A PM está mudando e a tendência é ficar mais perto da população. Isso tem acontecido e tem dado certo.

 

GazetaMT - Sobre a área de lazer no 5º Batalhão da PM

Ten. Cel. Maurício: O espaço era estacionamento do Detran. Guardavam veículos apreendidos lá no pátio, o que para nos era um problema a mais. Foram retirados os carros e construímos uma pista de corrido com dois campos de futebol. O que falta é a população entender que o espaço é para o povo.

É gratuito e o cidadão pode e deve utilizar aquele espaço. Tem atletas profissionais treinando lá, é isso o queremos. Ainda falta a população usar mais o espaço. Tanto a pista quanto para os campos de futebol. Basta agendar conosco e utilizar à vontade.