Homenagem
Pesquisadora ajuda a desenvolver a piscicultura em MT
Janessa Ribeiro fundou e coordena o Núcleo de Estudos em Pescado da UFMT (Nepes)
05 de Março de 2016, 14h00
A Agência Sebrae de Notícias Mato Grosso escolheu uma cientista radicada em nosso estado, que está contribuindo para o desenvolvimento da cadeia produtiva da piscicultura mato-grossense, como exemplo para homenagear todas as mulheres no Dia Internacional da Mulher.
Professora universitária e pesquisadora por paixão e vocação. Assim se autodefine Janessa Sampaio de Abreu Ribeiro, bióloga, doutora e mestra em aquicultura pelo Centro de Aquicultura da Universidade Estadual Paulista (Caunesp), com teses em imunonutrição de peixes. Ela veio de São José do Rio Preto para Cuiabá, há oito anos, para trabalhar como professora na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Nesse curto espaço de tempo, já construiu uma história que está se transformando em legado importante para a piscicultura de MT.
"Além da bagagem técnica e científica de alta qualidade, a postura firme e decidida de Janessa, a tornam uma grande aliada da piscicultura e dos produtores de peixes de MT", afirma Jules Bortoli, presidente da Aquamat (Associação dos Aquicultores de Mato Grosso). Ele atribui a aprovação de licença, que permitiu a ampliação da área do Lago do Manso para a produção de peixes ao estudo realizado por ela. "Esta é a conquista mais recente da Aquamat. Este estudo foi fundamental para a concessão da licença pelo órgão federal, que vai permitir o aumento da capacidade produtiva no lago", esclarece.
Os peixes de água doce de MT a deixaram "apeixonada", diz ela. Janessa, 37 anos, casada, sem filhos, dedica grande parte do dia a esses animais com um objetivo: gerar conhecimento para ser aplicado pelos produtores de peixes do estado. A professora e pesquisadora passa cerca de 10 h/dia na universidade, entre sala de aula, laboratório, fazenda experimental da UFMT, reuniões com os piscicultores, entre outras atividades, pensando e falando em peixes.
"Sempre quis ser professora, brincava de dar aula quando criança e gostava muito de estudar. A carreira acadêmica e de pesquisa sempre me atraiu ", conta. Antes de se tornar mestra e doutora, se formou em Ciências Biológicas na Unesp em São José do Rio Preto (SP), sua cidade natal.
Janessa chegou em Cuiabá em 2008 para integrar o corpo docente da UFMT. A realidade da piscicultura em MT a surpreendeu. "A piscicultura de Mato Grosso se desenvolveu, até agora, graças ao esforço dos produtores de peixes e ao espírito empreendedor forte no estado. O segmento é muito atuante, cobra, vai atrás. A universidade chegou depois", comenta. Diferente do que ocorre no estado paulista, onde o desenvolvimento científico chegou antes do produtivo, compara.
Nepes
Em 2012, ela ajudou a fundar e hoje coordena o Núcleo de Estudos em Pescado (Nepes) na Faculdade de Agronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia (Famevz) da UFMT. O núcleo foi reconhecido oficialmente em 2014. Junto com cinco professores desenvolve estudos e pesquisas fundamentais para a piscicultura.
"Esta é uma importante atividade econômica do estado", enfatiza a pesquisadora. Atualmente Mato Grosso ocupa o segundo lugar no ranking nacional de produção de peixes de água doce, atrás de Rondônia, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2015. Sorriso continua sendo o município que mais produz peixes no país.
O potencial da piscicultura aqui é enorme. O segmento ainda vai dar muito orgulho ao estado, segundo a pesquisadora. A produção de peixes está passando por grandes modificações no país. Daqui a 15 anos, o momento atual será lembrado como a grande virada da piscicultura em Mato Grosso, prevê.
Resultados
Em 2017, o Nepes vai apresentar resultados robustos das pesquisas aplicadas com peixes nativos de água doce, entre os redondos ( pacu, tambaqui, pirapitinga), híbridos ( tambatinga, tambacu, etc) e puros (matrinxã, peraputanga, pintado). Os experimentos foram feitos em 2015, e este ano, os resultados estão sendo tabulados.
"Serão resultados importantes sobre o desempenho desses animais. Mostraremos as vantagens da hibridação e também dos peixes puros. Vamos apresentar, ainda, a avaliação do desempenho dos peixes melhorados geneticamente". Pode ser que se chegue à conclusão de que os puros ganham peso tanto quanto os híbridos, causando menos impacto ambiental, observa.
As pesquisas com o tambaqui melhorado geneticamente foram realizadas pelo programa nacional da Embrapa até 2013 e, depois de encerradas, foram assumidas pela empresa Delicious Fish em seu laboratório em Sorriso. A UFMT conseguiu alguns alevinos com a empresa e testou o desempenho desses animais - como ganho de peso, geração para geração, etc.
A produção de conhecimento na universidade sobre os peixes da Amazônia como o pintado vem crescendo, segundo Janessa. Há duas dissertações de mestrado, a serem publicadas. Apesar de a UFMT ter iniciado na área da aquicultura modestamente, as pesquisas e dissertações estão aumentando. O Nepes avalia o teor proteico das rações de mercado para os produtores de peixes. É informação essencial para eles, esclarece.
A parceria com a Aquamat e o Sebrae MT são fundamentais para o desenvolvimento da cadeia produtiva da piscicultura, destaca. Foi um aspecto que achou diferente no estado. "É importante eles se organizarem, serem unidos e contarem com uma instituição que os apoia como o Sebrae. Nunca tinha visto isto antes", ressalta.
Recursos humanos
Janessa se diz orgulhosa como professora pelo fato de os alunos de vários cursos já estarem se interessando pela piscicultura e querendo se especializar para trabalhar no segmento, quando formados. " A principal contribuição que podemos dar à piscicultura é esta: a capacitação dos recursos humanos, alunos que se tornam professores, pesquisadores ou técnicos para atuar na cadeia produtiva de peixes", ressalta.
Ela afirma que a grande satisfação é saber que não será mais necessário trazer profissionais do sul e sudeste para Mato Grosso. "Estamos cumprindo nosso papel, modestamente, dentro das limitações, com falta de recursos, com burocracia, mas estamos conseguindo", declara.
Sobre o Dia Internacional da Mulher, Janessa deixa o seguinte recado: "investir no seu sonho e sair da zona de conforto exige coragem, mas vale a pena, senão você se torna uma pessoa medrosa. Tirar o sustento da família, fazendo o que gosta, é a melhor coisa do mundo. O cansaço é físico, não é mental".