Alzheimer Cultural

por Guilherme Filho é jornalista em Cuiabá.

06 de Janeiro de 2014, 10h58

Alzheimer Cultural
Alzheimer Cultural

Rondonópolis já é uma sessentona. Uma cidade alegre, jovial e muito promissora. A população ainda vive a ressaca dos festejos, mas na agenda das comemorações o que faltou foi o (re)conhecimento dos valores culturais desta terra e do seu povo. Quando vi pela imprensa que a Banda Marinho e seus Beat Boys foi ignorada pelos organizadores da festa do último aniversário, confesso, me surpreendi. Esse grupo musical, queiram ou não os culturólogos contemporâneos, não é apenas a banda do Crisóstomo, Zito e Serginho. O grupo é um dos mais fortes traços da cultura popular desta região. Um marco na história do município. Nasceu com a cidade e influenciou os costumes e tradições deste povo ao longo de décadas.

E, observem os senhores que não falo de algo do passado, a banda Marinho é atual. Ela toca desde o jazz, axé music até o funk, com a mesma qualidade e empolgação com que embalava os namorados nas noitadas da ABR e do Rondonópolis Clube, nos idos de 1960. Aliás, foi em 1967 que o maestro Marinho Franco, influenciado pela onda Beatles, repaginou sua então badalada Jazz Band e que passou a se chamar Marinho e seus Beat Boys. O velho Maestro foi um colecionador de troféus e títulos de reconhecimento ao seu talento, de Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro à capital paulista. Em Mato Grosso não foi diferente. Mas após a morte do seu líder maior a Banda não sofreu um revés, mas deixou de merecer, principalmente da autoridade municipal o seu devido valor cultural.

Lamentavelmente aqueles que gerenciam este setor na administração pública não entendem como necessária a manutenção dos costumes e tradições como patrimônio maior de um povo. O vazio da mente ou quem sabe os interesses desconecto com os fins a que se propõe esta função, os impedem de agir com equilíbrio e sensatez. O certo é que não existe outra manifestação que possa superar a influência deste grupo no contexto histórico e cultural do município. Mesmo à revelia da equivocada gestão da cultura em Rondonópolis, a Banda Marinho vem tocando o seu destino.

Vez ou outra tenho visto suas apresentações em Cuiabá e sei do seu sucesso nas cidades da região. Não advogo por eles, mas entendo que nem a Banda Marinho ou qualquer outro grupo musical de Rondonópolis busca a valorização e o prestígio por intermédio de contrato de apresentação custeado por verbas públicas. Mas defendo que os recursos destinados a este setor deveriam sim, fomentar a literatura, as artes plásticas, o teatro e outras produções culturais como a música popular, sem nunca desprezar os valores locais, de forma justa e imparcial.