DIA DO FOTÓGRAFO

GazetaMT celebra data vasculhando no garimpo das memórias de Dnei Matos

por Robson Morais

06 de Janeiro de 2017, 10h36

GazetaMT celebra data vasculhando no garimpo das memórias de Dnei Matos
GazetaMT celebra data vasculhando no garimpo das memórias de Dnei Matos

Dnei abriu o "garimpo". Foto: Luan Dourado/GazetaMT

A necessidade de reinventar, vez ou outra, nos aponta uma nova paixão. É fato e foi assim com o personagem homenageado nas linhas abaixo. Em comemoração ao Dia do Fotógrafo, 8 de janeiro, abrimos o espaço para algumas das lembranças destes quase 15 anos de trabalho de um dos principais nomes do fotojornalismo no Estado. Fomos ao garimpo das memórias de Dnei Matos.

Nascido e criado em Rondonópolis, 43 anos de idade e quase duas décadas de imprensa. Antes como laboratorista, profissional hoje raro que revelava fotografias em estúdio, depois como repórter em campo. Ainda nos anos 90, quando a tecnologia mudou o modo de fazer notícia, o então Valdnei Matos renasceu. Virou Dnei, o fotojornalista.

Iniciou a carreira em um dos principais jornais impressos do Estado, o maior de Rondonópolis. No A Tribuna, ainda hoje de imenso prestígio, nasceu o fotojornalista Dnei, ainda sob os cuidados do fundador do grupo Aroldo Marmo de Souza. O nome do patrono hoje é dado em sua homenagem a nova ponte sobre o Rio Vermelho, inaugurada em dezembro do último ano, local escolhido pelo fotógrafo para reviver as lembranças.

"Você já andou por aqui? Está coisa de doido", inicia Dnei a conversa, acostumado ao detalhe no olhar. "Por isso eu escolhi fazer a entrevista aqui, pelo nome e porque é bonita mesmo", diz. Caminhamos juntos, fotógrafo e equipe, por toda a extensão da obra. De ponta a ponta, muita conversa.

Deu certo

Dnei escolheu a ponte que carrega o nome de seu primeiro patrão. Foto: Luan Dourado/GazetaMT"Cara, quando eu comecei, foi meio por acaso. Eu era laboratorista, revelava tudo para a impressão no extinto offset, cheguei até a ser gráfico. Só que aí o jornal digitalizou tudo, lá no começo dos anos 90, minha função ficou obsoleta e então resolveram me dar uma única chance. Disseram para eu me virar com a câmera ou então...", continua em tom humorado. "Deu certo. A primeira foto publicada saiu com o nome de Valdnei, mas eu já era o Dnei", atesta.

O equipamento, lembra Dnei, ainda era o analógico. Máquina de filme. "Eu costumada usar um de 400 asas (refere-se a entrada de luz, como o ISO), as vezes de 100 quando estava de dia. Quando a foto tinha que sair na edição daquele mesmo dia do jornal eu corria para combinar com o laboratorista do estúdio para correr lá e fazer a revelação. Era um tempo de correria".

Tempo, lembra o fotógrafo, do tão temido deadline. A hora do fechamento que tanto apavora quem atua na imprensa, ainda hoje e antes mais. "A adrenalina sempre me deu frio no estômago. Até hoje dá. Mas nunca me assustou", diz Dnei. Desde que partiu para a rua, em busca das notícias, nunca mais voltou. Virou caçador.

Ao longo dos anos, histórias. Dnei Matos cobriu de casamento a tragédia, registrou alguns dos casos mais importantes da história de Rondonópolis, ganhou repercussão nacional. Eternizou, como prefere, momentos únicos.

Rebelião, tragédia e futebol...

Em 2005 e 2010, dois momentos alegres. Esportivos. Dnei Matos cobriu os campeonatos estaduais vencidos pelas equipes rondonopolitanas Tigrão e União, respectivamente. "As fotos que viraram pôsteres eram nossas", lembra empolgado e fazendo referência aos colegas que colaboraram com todo o processo de publicação das imagens. "As fotos marcaram a história dos clubes, a nossa. Rodaram por todo lugar".

Em 2001, situação oposta. Dnei registrou de perto a reconstituição de um crime brutal. O menino Nilson Pedro da Silva havia sido executado a sangue frio por um policial militar. Um ano antes, em 2000, já havia se metido dentro do presídio estadual da Mata Grande, onde cobriu a morte de 13 detentos durante uma rebelião. Entre os casos históricos, outras tantas e incontáveis ocorrências.

"Já fiz mesmo de tudo. Acompanhei o ex-presidente Lula em Rondonópolis, alguns acidentes feios nas rodovias, casos policiais. Em um homicídio o marido havia assassinado a mulher enquanto ela almoçava e deixado a arma ao lado do corpo. A cena era ela caída em cima do prato e a arma também na mesa. Fiz essa foto", diz. "Estar nesses locais mexe muito com a gente, mas tem que ter sangue frio. Já desmontei, mas me recompus. Jornalismo é isso. Alguém tem que registrar o fato. Esse alguém é o jornalista".

Refém de índio

Também em 2001, Dnei e outros oito profissionais de imprensa passaram dias como reféns de índios terenas que bloquearam a BR-163. "Nossa, foi complicado. Estávamos cobrindo tudo para a imprensa de todo o Brasil, mandando material. De repente nos pegaram. Aí negociei com o cacique e disse: se vocês querem ser ouvidos precisam liberar quem vai publicar na imprensa ou então ninguém vai ler nem assistir. Liberaram um profissional de cada veículo. E o carro do jornal, naquele dia, eu perdi" conta. Três dias depois, tudo foi recuperado e os profissionais todos libertados.

Entre uma e outra história, entrevistado e reportagem se perdem em nostalgia. Seguimos o passo pela ponte escolhida como cenário por Dnei Matos, avançando pela cronologia jornalística. Ele lembra dos colegas que admira. "Muita gente me ajudou muito, tenho admiração por tanta gente". Lembra nomes, mas para evitar injustiças e esquecimentos, deixemos assim discreto. Estão todos contemplados.

Coisa de doido

"Ser fotojornalista é isso, né. O repórter, se não for doido, maluco, simplesmente não trabalha. Tem que ter ética e ser maluco", analisa o especialista Dnei. "Com medo ou sem medo o jornalista vai e registra".

Já no final do "percurso" ida e volta sobre a ponte, nosso entrevistado deixa suas últimas frases. De efeito, coisa de jornalista. "De tudo o que aprendi trabalhando e vivendo, o principal é ser ético, jornalístico e companheiro. Tenho prazer em poder ser útil", solta. "O fotógrafo faz foto da classe baixa até a alta sociedade. De juiz a bandido". 

"Coisa de doido" diz sobre ser fotojornalista. Foto:Luan Dourado/GazetaMT