CIRANDEIRA
O mel de Mourão na boca da esquerda
06 de Fevereiro de 2019, 09h12
Nem bem começou o novo governo de Jair Bolsonaro e o protagonismo do "mito" já não parece mais o mesmo. Se engana, porém, quem acredita que a arranhadura parta da oposição. O negócio está mais para fogo amigo. Tiro certeiro de general.
Desde que se afastou das funções para sua nova cirurgia, Bolsonaro se viu obrigado a ver o vice, Hamilton Mourão, no centro das atenções da mídia. Um militar inteligente, sensato, ponderado. Parece possuir perfil e ideias que não condizem em nada com as sandices do capitão eleito.
Mourão fala com certa tranquilidade e expressa opiniões não-conservadoras. Sobre aborto, por exemplo, endossou o coro de que a mulher é quem deva decidir. Sobre a crise política na Venezuela, descartou intervenção militar brasileira. Também recentemente, defendeu em discurso a redução de impostos.
Não lembra em nada o general que nos tempos de campanha eleitoral classificou como "fábrica de desajustados" lares comandados por mulheres, ou o que disse a empresários que 13º salário e pagamento de adicional de férias são "jabuticabas" (só ocorrem no Brasil), numa clara defesa à retirada de direitos trabalhistas. Nem mesmo o candidato autor das seguintes frases: "Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena" e "a malandragem é oriunda do africano".
Mourão foi tanto na contramão que o próprio Jair teve que se pronunciar no sentido inverso. E o fez, claro, pelo Twitter. Assunto este para outra coluna.
De volta ao vice, foi tanta declaração considerada progressista que até setores de uma jovem esquerda repercutiram a fala. O general de patente encantou a chamada esquerda cirandeira, cujas premissas são: de classe média, preferencialmente branca, universitária (de humanas), militante de internet, empoderada por meio de memes e que cita os mais variados autores nunca lidos para justificar suas ideias postas nas rodas de bar.
Mourão atraiu tanto os cirandeiros que desagradou a própria direita bolsonarista. Da equipe de governo e o próprio Jair até o falso guru Olavo de Carvalho e a militância paneleira que insiste no "fora PT".
Coube ao vice, inclusive, perder o status de general e ganhar um novo: o de comunista. Que absurdo! Esquerdista lambendo bota de general é novidade. Como os "verde-amarelos", se apresenta esta também uma burra base política.
Inteligente, Mourão conduz a ciranda na palma da mão, na medida em que seu real projeto de Brasil avança por entre dois polos igualmente ignorantes. Somados, é claro, à evidente incapacidade do presidente eleito. "Táôkêi!".