A Lista de Riva
06 de Abril de 2017, 16h14
Oskar Schindler foi um empresário rico e membro do partido Nazista. Durante a Segunda Guerra Mundial fez o mesmo que muitos outros alemães poderosos: usou o trabalho forçado de judeus perseguidos para ganhar mais dinheiro. Mas, por volta de 1944, diante do avanço dos aliados, Hitler determinou a execução em massa dos judeus. E aí algo tocou o coração de Schindler. O empresário iniciou um ousado plano para salvar o máximo de vidas possível. Colocando a própria vida em risco, Schindler usou sua influência e cada centavo que tinha para salvar mais de 1.200 pessoas da morte certa. Sua história virou livro e um filme bastante premiado intitulado 'A Lista de Schindler' (vale a pena conferir). O caso alemão veio à memória com a repercussão de uma outra lista, divulgada na semana passada pelo ex-deputado, ex-presidente da ALMT e ex-Todo-poderoso de Mato Grosso, José Riva.
Riva apresentou à Justiça uma relação com nomes de 34 pessoas que teriam se beneficiado com o esquema de desvio de dinheiro no Poder Legislativo estadual. Eis que, do dia para noite, o político mais ficha-suja do País foi convertido numa espécie de Oráculo - com o poder de determinar quem é honesto e quem não é. Quanta bobagem.
Riva continua tão sujo como antes. O fato de ter admitido alguns crimes não altera os danos causados e nem pode diminuir a marcha do Poder Judiciário no trâmite dos mais de 100 processos em que ele aparece como réu. Também não se deve acreditar que a decisão de revelar nomes de antigos cúmplices indique sincero arrependimento pelo mal feito. É, provavelmente, mais uma estratégia com múltiplos objetivos espúrios: reduzir a pena, comprometer desafetos e proteger parceiros políticos.
O fato é que Riva precisa apresentar as provas que comprovem os crimes que atribui aos integrantes da lista. Caberá aos acusados demonstrar o contrário e à Justiça declarar a culpa ou inocência de cada um deles. Já os ex-deputados que, segundo ele, se recusaram a receber propina precisam nos explicar porque tiveram a decência de não se corromper, mas não tiveram coragem para denunciar e combater a corrupção.
Também é fato que o esquema criminoso que tinha Riva como um dos comandantes não alcançaria aquela proporção e nem duraria tanto tempo sem o respaldo (pela ação ou omissão) de todos os deputados e parcelas consideráveis do Executivo, do Judiciário, do Ministério Público, do empresariado...e da Imprensa de Mato Grosso.
A única semelhança entre as listas de Schindler e a de Riva é que ambas são incompletas. Schindler não tinha como salvar todos os judeus dos nazistas; já Riva nunca teve a intenção de revelar a verdadeira extensão do esquema que ajudou comandar.
Os judeus sobreviventes resgataram a história de Oskar Schindler e ainda hoje erguem monumentos em sua homenagem. Já nós, mato-grossenses, devemos exigir exemplar punição e repudiar, 'ad-aeternum', a podridão que marcou o comportamento de Riva e seus cúmplices.
Eduardo Ramos é jornalista em Rondonópolis.