OPINIÃO
Cidades mais eficientes começam com decisões melhores: como imagens podem apoiar gestores públicos
06 de Setembro de 2026, 06h00
Ao longo da minha trajetória trabalhando com tecnologia aplicada ao videomonitoramento, uma convicção se tornou cada vez mais evidente: cidades não precisam, necessariamente, de mais informação. Precisam tomar decisões melhores a partir das informações que já possuem.
Todos os dias, uma cidade produz milhares de sinais sobre o seu funcionamento. Uma avenida que começa a registrar lentidão em determinados horários, uma praça que perde circulação durante a noite, uma região que passa a concentrar demandas recorrentes por serviços públicos. Esses movimentos revelam mudanças importantes na dinâmica urbana, mas nem sempre são percebidos com a velocidade necessária por quem precisa planejar ações.
Durante décadas, associamos as câmeras quase exclusivamente à segurança. Elas eram vistas como ferramentas para registrar ocorrências e ajudar a esclarecer fatos depois que um incidente acontecia. Esse papel continua sendo importante, mas acredito que enxergar as imagens apenas dessa forma significa limitar enormemente o potencial de uma infraestrutura que já está presente em tantas cidades.
Quando utilizadas de maneira responsável e integradas a sistemas de análise, as imagens podem se transformar em um instrumento valioso de apoio à gestão pública. Elas ajudam a identificar padrões de circulação, acompanhar áreas de maior fluxo, localizar pontos de congestionamento e observar os impactos de intervenções realizadas no espaço urbano. Não substituem engenheiros, urbanistas ou gestores. Oferecem, isso sim, uma visão adicional da realidade para que esses profissionais possam decidir com mais precisão.
Na prática, esse tipo de inteligência faz diferença porque a administração pública costuma lidar com informações fragmentadas. Mobilidade trabalha com determinados dados, segurança possui outros, defesa civil e zeladoria têm suas próprias bases de informação. O desafio não está apenas em reunir dados, mas em conseguir interpretá-los de forma integrada. É justamente nesse ponto que a tecnologia pode contribuir: conectando informações que ajudam a revelar tendências antes que elas se transformem em problemas maiores.
Uma obra viária é um bom exemplo disso. Nenhum projeto termina quando sai do papel. A cidade responde à intervenção de maneiras muitas vezes diferentes das previstas inicialmente. Observar os fluxos antes, durante e depois da obra permite identificar ajustes necessários e compreender melhor seus efeitos. O mesmo vale para grandes eventos, corredores comerciais, áreas escolares ou regiões que constantemente demandam melhorias de iluminação, limpeza ou presença de equipes públicas.
Defendo, porém, que esse debate venha acompanhado de um princípio inegociável: a inteligência urbana não pode ser confundida com vigilância indiscriminada. Tecnologia sem governança deixa de ser solução e passa a representar risco. Por isso, finalidade pública, transparência, proporcionalidade no uso dos dados, controle de acesso, prazos de retenção e auditoria precisam fazer parte de qualquer projeto desde sua concepção.
Também seria um erro acreditar que algoritmos resolverão os desafios das cidades por conta própria. Eles não substituem a sensibilidade de quem conhece o território, a escuta da população ou a responsabilidade de gestores eleitos e servidores públicos. Decisões urbanas exigem contexto, interpretação e prestação de contas. A tecnologia deve apoiar esse processo, jamais ocupar o lugar das pessoas.
Na minha visão, o verdadeiro desafio não é instalar mais câmeras. É transformar uma infraestrutura existente em inteligência útil, confiável e capaz de apoiar políticas públicas mais eficientes. Quando imagens deixam de ser apenas arquivos consultados depois de um incidente e passam a contribuir para compreender a dinâmica da cidade, gestores ganham uma ferramenta importante para planejar melhor, evitar desperdícios e direcionar recursos com muito mais assertividade.
O futuro das cidades não será definido pela quantidade de câmeras espalhadas pelas ruas. Será definido pela qualidade das decisões tomadas a partir das informações disponíveis. E essa, acredito, é uma discussão muito mais relevante do que simplesmente falar em vigilância: trata-se de usar a tecnologia para construir cidades mais eficientes e, sobretudo, mais preparadas para as necessidades reais de quem vive nelas.