OPINIÃO

A economia do medo está criando “novos vencedores” e movimentando mercados

por Fabio Ongaro

07 de Maio de 2026, 06h10

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Por muito tempo, tratamos o medo como um ruído dos mercados, um fator que derruba bolsas, eleva prêmios de risco e distorce decisões. Mas essa visão é incompleta. O medo não apenas destrói valor, ele também cria valor. E talvez estejamos entrando numa fase em que a economia do medo deixou de ser periférica para se tornar uma lógica central de alocação de capital.

Guerras, ataques cibernéticos, fragmentação geopolítica, crises energéticas, instabilidade institucional, tudo isso não apenas ameaça setores tradicionais, mas impulsiona outros. Em toda época de insegurança surgem vencedores silenciosos.

Hoje, defesa, cibersegurança, infraestrutura crítica, ouro, alimentos estratégicos, energia e até seguros deixaram de ser apenas setores defensivos, passaram a ocupar o centro da conversa econômica. Há uma tese desconfortável aqui: a instabilidade não é apenas um risco a ser administrado. Tornou-se, também, um motor de demanda. O medo, goste-se ou não, virou vetor econômico.

Isso ajuda a entender por que empresas como Palo Alto Networks ou CrowdStrike passaram a ser vistas menos como nichos tecnológicos e mais como infraestrutura de soberania. O mesmo vale para o renascimento do setor de defesa, com grupos como Lockheed Martin ou Rheinmetall. Não é apenas rearmamento, é reprecificação do risco. E, como sempre, quando o risco muda de patamar, o capital muda de direção. O que parecia setor periférico vira prioridade estratégica.

Segurança virou classe de ativo

A mudança talvez mais profunda seja esta: segurança está se tornando uma classe de ativo. Durante décadas, investidores buscaram crescimento, eficiência e escala. Agora crescem também os fluxos para proteção digital, alimentar, energética e territorial. Isso altera o mapa de vencedores.

O ouro volta a ser mais do que hedge. Infraestrutura elétrica e hídrica ganham valor estratégico. Terras agrícolas despertam interesse patrimonial. Seguros deixam de ser apenas custo e voltam a ser instrumento de resiliência. Em certo sentido, o capital está comprando proteção.

Isso tem implicações maiores do que parecem. Se segurança passa a ter valuation próprio, setores antes considerados pouco glamourosos podem ganhar centralidade. Água, redes elétricas, fertilizantes, monitoramento satelital, inteligência aplicada à proteção de ativos, tudo isso começa a orbitar um mesmo fenômeno. É o mercado precificando vulnerabilidade. E essa lógica pode favorecer países que oferecem aquilo que o medo torna escasso: estabilidade, recursos críticos e menor exposição a choques. É aqui que o debate deixa de ser setorial e passa a ser geoeconômico.

Os novos vencedores não são óbvios

Quando se fala em ganhadores de crises, pensa-se logo em fabricantes de armas ou petróleo. Isso é superficial. Os vencedores mais duradouros talvez sejam outros: quem oferece previsibilidade num mundo volátil. Isso pode significar uma empresa de cibersegurança, um produtor de alimentos, uma seguradora sofisticada ou um país exportador de energia limpa. O medo não premia apenas quem vende proteção explícita, premia quem reduz incerteza.

Há um paralelo histórico importante. Grandes ciclos econômicos frequentemente criaram setores líderes a partir de vulnerabilidades da época: ferrovias no século XIX, petróleo no século XX, tecnologia no fim do século passado. Talvez o século XXI esteja adicionando um novo vetor: resiliência. E resiliência monetiza.

Não surpreende que o mercado esteja começando a pagar múltiplos maiores por negócios ligados a proteção, redundância e continuidade operacional. O mundo que idolatrava eficiência extrema começa a redescobrir o valor do backup. Isso é quase uma mudança filosófica no capitalismo.

O risco é achar que isso é passageiro

A leitura mais ingênua seria tratar tudo isso como reação temporária a um momento turbulento. Talvez seja algo mais estrutural. Se a geopolítica permanecer instável, se ataques digitais seguirem escalando e se cadeias produtivas continuarem sendo redesenhadas, a economia do medo pode não ser um interlúdio, pode ser uma arquitetura duradoura. E isso muda investimentos, políticas públicas e modelos de negócio.

Há, inclusive, uma provocação moral e econômica nisso: sociedades acostumadas a ver segurança como pano de fundo talvez tenham de aceitá-la novamente como setor produtivo central. Não é uma visão romântica, mas realista. E talvez o ponto mais provocativo seja este: enquanto muitos olham para o medo apenas como ameaça, o capital já começou a tratá-lo como oportunidade. Em mercados, isso costuma anteceder grandes deslocamentos.

O medo não é só um sentimento político, tornou-se um mecanismo de criação de valor. E entender quem ganha com isso pode ser uma das chaves para entender o próximo ciclo econômico.

Por Fabio Ongaro, economista italiano e empresário no Brasil, CEO da Energy Group

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