OPINIÃO

Brasil entre a democracia e o assombro do autoritarismo

por George Ribeiro

07 de Agosto de 2025, 06h10

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Divulgação

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro marca um momento simbólico na história e, ao mesmo tempo, perturbador na política brasileira, sobretudo diante da reação popular. Enquanto alguns comemoram a aplicação da lei, outros continuam a defender ideais que, historicamente, levaram à supressão de direitos fundamentais.

Recentemente, o que vimos foi parlamentares que, na própria concepção da palavra — do francês parler, que significa “falar” ou “discutir” — contradizerem a natureza da instituição à qual pertencem, ao calarem a si mesmos. Tapam as próprias bocas com esparadrapo e, simbólica e literalmente, também os olhos e ouvidos, ilustrando o comportamento de quem se recusa a ver e ouvir as reais necessidades da população.

É cômico ver tal despreparo, mas a gravidade não pode ser ignorada. Eles custam caro ao país.

O Brasil já viveu momentos sombrios, quando a extrema-direita sustentava uma ditadura responsável por crimes contra a humanidade. Vladimir Herzog, jornalista e professor, foi torturado e assassinado por se opor à repressão. Mulheres foram mantidas em celas imundas, algumas compartilhando espaço com cobras, e submetidas a torturas desumanas, incluindo a introdução de ratos em seus corpos. Hoje, admiradores desse período, como Bolsonaro, reivindicam direitos humanos, após terem afirmado que esses valores eram “lixo” ou “esterco da vagabundagem”. Enquanto clamam por liberdade de expressão, utilizam-na para propagar discursos autoritários, violentos e ameaçadores aos opositores e à própria pátria.

Nos últimos acontecimentos, vimos grupos clamando pelo AI-5, por um golpe de Estado e até por intervenção estrangeira, humilhando nossa concepção de soberania. No Congresso Nacional, tentativas de paralisar o funcionamento das instituições lembraram a violência do dia 8 de janeiro, prejudicando milhões de brasileiros e barrando pautas importantes. A polarização atual não é apenas entre esquerda e direita, mas entre quem defende o Estado democrático de direito e quem prega a destruição das instituições e das liberdades civis.

Enquanto Bolsonaro cumpre prisão domiciliar no conforto de sua mansão, o contraste com as vítimas da ditadura que ele exalta é flagrante. Registros históricos mostram que o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra não poupou sequer crianças: Edson, de apenas 4 anos, e Janaína, de 9, foram presos e brutalmente machucados sob seu comando. Ustra, vale lembrar, é considerado ídolo pela família Bolsonaro.

Esse é o contexto que torna um ato necessário de justiça a detenção do ex-presidente, o mesmo que declarou que daria um golpe no mesmo dia em que assumisse a presidência, que o Brasil precisava de uma guerra civil e de "matar uns 30 mil".

É urgente que a população saia das bolhas retóricas do fascismo, financiado por grupos de ricos totalitaristas. O Brasil precisa reconhecer que não há espaço para nostalgias autoritárias. Defender os direitos humanos, proteger a liberdade de expressão e garantir eleições livres não é uma questão ideológica, mas um imperativo democrático. O país já demonstrou que pode resistir às investidas do golpe, da intervenção externa e é fundamental que continue firme, soberano e comprometido com os princípios da Constituição.

*George Ribeiro é professor da rede estadual de ensino, pós-graduado em Gestão Pública e Gerência de Cidades, e mestrando em Educação pelo PPGEduc/UFR. Redes sociais: @georgeribeiroo