A escolha do senador Wellington Fagundes (PL) ao oficializar o médico Alencar Farina (PL) como candidato a vice-prefeito na disputa pelo Governo de Mato Grosso escancara, mais uma vez, a fragilidade da coerência ideológica na política tradicional. Ao rifar o empresário Marcelo Maluf (Novo) na reta final do jogo de alianças, a movimentação não apenas frustrou acordos de última hora, mas ressuscitou uma antiga e incômoda pecha que assombra Fagundes perante a ala conservadora: a de “melancia” — verde por fora, mas indiscutivelmente vermelho por dentro.
O ruído provocado na base militante bolsonarista não ocorre por acaso, mas por puro histórico. O currículo de Alencar Farina é um retrato vivo de uma trajetória entrelaçada à esquerda mato-grossense. Em 2004, Farina figurou como vice de Alexandre César (PT) numa aliança que reunia PT, PL e PCdoB. Em 2008, vestiu abertamente a camisa do PT para disputar uma cadeira na Câmara de Cuiabá e, em 2012, teve sua candidatura à Prefeitura de Várzea Grande chancelada pelos próprios petistas.
Curiosamente, esse laço com a esquerda teve sua gênese em 2003, sob as próprias bênçãos de Wellington Fagundes, quando o médico migrou do PMDB para o PT sob o apadrinhamento de José Alencar. O reencontro da dupla, mais de vinte anos depois, prova que as velhas articulações de bastidor continuam sobressaindo sobre qualquer discurso de purismo ideológico.
Para a ala conservadora do PL, a escolha soa como uma provocação direta. Ao priorizar arranjos pessoais e laços históricos em detrimento do alinhamento programático que a legenda prega nacionalmente, a chapa evidencia que a busca pelo poder, muitas vezes, atropela a fidelidade às pautas do eleitorado que promete representar.