NOTA DE R$3
Ao comunicar renúncia, por fora Cunha chorou. Por dentro, riu
08 de Julho de 2016, 11h07
Afastado da presidência da Câmara dos Deputados desde o mês de maio, Eduardo Cunha resolveu, em decisão tomada em conjunto com o chamado "centrão" formado por cabeças aliadas, entregar os pontos. Renunciou e chorou ao anunciar, enfim, a tão esperada novidade na última quinta-feira (7). Réu em dois processos da Lava Jato, muito se engana quem pensa que nas lágrimas do nobre há um pingo sequer de consternação. Conhecemos todos mais um truque de um mestre em ser fingido.
O que Cunha visa é óbvio: manutenção de seu foro privilegiado no STF, seguindo o curso natural de suas inúmeras manobras políticas. Para aceitar renunciar, o deputado iniciou a costura de um acordo com o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Osmar Serraglio (PMDB-PR), para que o processo de cassação seja devolvido ao Conselho de Ética, com o objetivo de ganhar tempo e atrasar a votação do pedido de cassação do mandato no plenário.
No Salão Nobre da Casa, ao ler sua carta, o mesmo Eduardo Cunha que cênica e cinicamente chorou ao lembrar da esposa e da filha mais velha (ambas também investigadas na Lava Jato), deixou escapar o riso contido quando se referiu a adversários políticos. O frio e calculista de sempre desta vez exercendo papel talvez um pouco diferente. Não muito.
Nas últimas semanas, nos corredores da capital Federal já se sabiam dos passos de Cunha, informação confirmada por integrantes do governo do atual presidente interino da República Michel Temer (PMDB). Um gesto de quem perdeu o "timing" na visão dos envolvidos. Cunha chegou a pedir a Temer que interviesse, mas o chefe lhe negou a mão amiga.
A saída definitiva de Eduardo Cunha da presidência da Câmara inicia a corrida que favorecerá seu grupo aliado. No páreo para substituí-lo, 15 deputados já disputam. Líderes do "centrão", que tem o apoio de 280 deputados, convocaram a eleição para a próxima terça-feira (12), contrariando decisão do presidente interino da Casa, Waldir Maranhão (PP-MA).
Muitos sopram pelo apito de Cunha e Cunha sopra também no de muitos. Seja qual for o próximo passo, assim será por muito tempo em Brasília.