EVOLUÇÃO

Estudos sugerem que as canetas emagrecedoras poderiam ajudar no tratamento de alguns tipos de câncer

Pesquisas recentes indicam que os agonistas de GLP-1, usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, poderiam desacelerar a metástase em alguns tipos de câncer, como pulmão, mama, colorretal e fígado

por Da Redação

08 de Julho de 2026, 08h57

None
Divulgação

As pesquisas sobre o efeito do uso de canetas emagrecedoras no câncer começaram há cerca de cinco anos, e mais dados são necessários para confirmar o benefício. Mas os análogos de GLP-1 são uma pista inovadora na busca de novos tratamentos contra a doença.

Segundo o oncologista clínico brasileiro Paulo Henrique Costa, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, que também atua nos hospitais da Rede Mater Dei, os estudos são retrospectivos, o que significa que são menos representativos em termos estatísticos.

“Não é um ensaio clínico randomizado. Nesse tipo de estudo, você divide os participantes em grupos: um recebe o tratamento, e outro, não, o que permite obter uma evidência muito mais sólida, quase irrefutável”.

Ele reitera a necessidade de outras pesquisas para confirmar a ação das moléculas em certos cânceres.

Essa precaução, diz, é ainda mais necessária diante da existência de um mercado paralelo de canetas emagrecedoras, obtidas sem receita ou recomendação médica.

Segundo o oncologista, controlar os fatores de risco ainda é a melhor maneira de prevenir o câncer e outras doenças. Isso inclui ter uma dieta adequada e o controle da obesidade, “sem sair usando esse medicamento de forma indiscriminada”, insiste o especialista, que participou do congresso.

“À medida que se reduz a obesidade, que é um fator de risco para o câncer, há benefício na redução da incidência da doença e em seu controle”, explica o especialista.

O uso das canetas emagrecedoras, diz, tornou esse benefício “ainda mais evidente”. A taxa de incidência de câncer também parece ser menor nos pacientes que utilizam a medicação.

“No caso de pacientes que já têm câncer e fazem o uso, o desfecho oncológico parece melhor: a doença progride menos e há menor risco de aparecimento de metástases. Isso leva a pensar que, ao controlar o fator de risco obesidade, que é central, há avanço no controle oncológico. A doença progride menos e há menos metástases.”

O estudo apresentado no evento analisou dados de mais de 12 mil pacientes de várias regiões do mundo.

Eles tinham diferentes tipos de câncer, que iam de estágios iniciais a intermediários. A pesquisa comparou pacientes tratados com análogos de GLP-1 (liraglutidapramlintidadulaglutidatirzepatida, lixisenatida ou semaglutida) a outros que receberam outros tipos de medicação antidiabética, como os inibidores de DPP-4.

Os resultados mostraram redução significativa na progressão de metástases, especialmente em quatro tipos de câncer: pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado.

Em outros tumores, como próstata, pâncreas e rim, houve tendência de benefício, mas sem significância estatística.

Efeitos diretos Os estudos preliminares apresentados durante o congresso da ASCO também indicam que, além de controlar a glicose e o peso, os agonistas de GLP-1 também podem ajudar a modular o sistema imunológico e a inflamação, além de melhorar a taxa de sobrevida global. “Existem novas evidências de que pode haver um efeito direto", diz o oncologista.

"Nas células tumorais existem vários receptores e proteínas na membrana celular, e parece que essas classes de drogas também exercem alguma ação direta sobre elas. Esse efeito ainda está sendo estudado. Vale lembrar que não é uma evidência definitiva, ela ainda é indireta, mas também pode contribuir para esse controle”.

O câncer se desenvolve em um contexto inflamatório, que levam a erros de replicação das células. A ação dos análogos de GLP-1 poderia contribuir para reduzir esse risco.

“O paciente com câncer, ou com maior risco para a doença, desenvolve o tumor em um ambiente de inflamação. Essas moléculas também parecem atuar na redução desse grau de inflamação proprício ao câncer”, reitera.

O especialista lembra que a ASCO é uma oportunidade para acompanhar a evolução dos tratamentos e grandes descobertas.

Mais de sete mil estudos foram apresentados nesta edição, com destaque para o daraxonrasib, o primeiro medicamento a agir de forma efetiva contra o câncer do Pâncreas, um dos mais letais. O remédio bloqueia a proteína KRAS, que atua na proliferação das células cancerígenas.