ROSANA LEITE
Nossas irmãs do futebol
08 de Setembro de 2020, 11h22
Falar de futebol no Brasil é tratar de um esporte extremamente valorizado no universo masculino. Por aqui a meta sempre foi a busca incansável por ídolos, digo no masculino.
O esporte é lugar de buscar alegria e satisfação por brasileiros e brasileiras. As mulheres atletas perseguem, a passos lentos, o reconhecimento, mesmo com tantos méritos já alcançados.
Os jogadores e jogadoras, e isso é inegável, em regra, começam a desempenhar a vocação nas ruas ou campinhos dos bairros, nas “peladas”, nos “jogos de bola”, na frente de casa. Passear por bairros distantes do centro da cidade, onde as comunidades se reúnem com a vizinhança, é encontrar crianças e adolescentes que fazem as suas “traves” com chinelos.
Sim, ali é o começo. E neste particular começam as discriminações... Meninas, nas ruas, a jogar futebol? Muito raro, afinal de contas, o ambiente fora de casa fica para eles. Em brincadeiras infantis a máxima não é diferente.
O esporte é profissão, e merece incentivo para meninos e meninas, em todas as modalidades. Não, isso ainda não é real! Vejo pais e mães procurando locais que as meninas possam jogar futebol. Mas, cadê o incentivo das escolas? Cadê escolinhas de futebol para elas?
Muitas romperam barreiras e nos trazem orgulho. No livro “Histórias de ninar garotas rebeldes”, volume 2, Editoras V&R, é contada um pouco da carreira da Marta Vieira da Silva, a nossa Marta.
Quando possuía 14 (catorze) anos, uma famosa treinadora a presenciou jogar bola com alguns meninos. Se impressionou com a velocidade e o excelente controle da bola, bem como, pelo desempenho com o pé esquerdo. Apostou que aquela menina seria uma campeã. Todavia, a jogadora enfrentou inúmeras adversidades em país machista, até conseguir jogar no Vasco da Gama.
Na Suécia foi reconhecida como grande futebolista, recebendo seis prêmios de melhor jogadora do mundo, sendo cinco deles consecutivos, honraria nunca conseguida por qualquer jogador de futebol até os dias atuais.
As mulheres que atuam como profissionais do futebol nunca descansaram. Apesar delas sempre buscarem a igualdade no percebimento de prêmios e diárias, da mesma forma que já recebiam os homens, essa sempre foi uma questão de difícil solução.
No último dia 02 de setembro, o presidente da CBF Rogério Caboclo anunciou que as diárias de agora em diante não serão diferentes em gêneros. Informou, ademais, que a premiação em caso de sucesso nas Olimpíadas, será nivelada com os valores da Copa do Mundo, para eles e elas.
Além dessa conquista, as mulheres ganharam uma coordenadora de competições de futebol feminino, Aline Pellegrino.
Ter o ambiente doméstico e familiar como o relegado para as mulheres por muito tempo, e conseguir algumas mudanças significativas como as aqui apresentadas é, sem dúvida, excepcional.
Marta é exemplo dentre tantas. E ela rememora, através de algumas frases, épocas da vida. “Eu era chamada de ‘mulher macho’. Isso me motivava. ” “Fico orgulhosa quando meninos e meninas me consideram um exemplo. ”
Que a atitude na CBF sirva de inspiração para outras modalidades esportivas! Quiçá as mulheres consigam um dia executar a mesma tarefa dos homens, em qualquer seara, e receber o tanto quanto eles! Utopia, diriam muitos e muitas? Não, justiça.
Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.