OPINIÃO
INDEPENDÊNCIA OU SORTE
08 de Setembro de 2025, 06h00
O 7 de Setembro foi um teste à nossa capacidade cognitiva enquanto povo brasileiro. Em um país profundamente polarizado, poucos acreditavam que chegaríamos ao ponto de ver uma bandeira norte-americana tremulando em um desfile patriótico nacional. Aliás, a própria palavra “patriota” foi tão contaminada nos últimos tempos que se distanciou por completo de sua etimologia original, chegando até mesmo a representar o oposto do que realmente significa.
Veja: segundo o dicionário Michaelis, “patriota” tem origem no grego patriótes, que significa “compatriota” ou “concidadão”, derivado de patris (terra natal, pátria) e patér (pai). A palavra passou pelo latim patriota até chegar ao português, com o sentido claro de quem ama e defende o próprio país. Então, por que (raios!) havia uma bandeira predominantemente vermelha dos Estados Unidos em um evento que celebra a independência do Brasil?
A escritora Simone de Beauvoir afirmava que “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. Estamos passando por uma das maiores chantagens internacionais da história recente, com os EUA se colocando como opositor declarado do avanço econômico do Brasil. Interferem com taxas arbitrárias, fecham contratos escusos com políticos brasileiros que agem contra os interesses nacionais. E quem aplaude isso? Alienados.
A alienação cultural é uma arma invisível, mas extremamente eficiente. Assim que nascemos consumimos produtos norte-americanos, assistimos a filmes de heróis hollywoodianos, sonhamos com a Disney, com o "American Dream" e com tudo o que vem embutido nesse pacote. A banda Legião Urbana já havia alertado sobre isso na música Geração Coca-Cola, expressando a esperança de que, “depois de vinte anos na escola, não é difícil aprender todas as manhas do seu jogo sujo”. Mas, para decepção de Renato Russo, parece que as pessoas não entenderam e tampouco “vão cuspir o lixo de volta” para os Estados Unidos.
Não fizemos a lição de casa. Elegemos, inclusive, um presidente submisso aos interesses norte-americanos, sim, o mesmo que bate continência para a bandeira dos EUA, declarou seu amor ao estrangeiro, e ousou chamar o Brasil de “lixo”. Também foi sob sua influência que a bandeira estrangeira ganhou espaço em um evento nacional. Infelizmente, ele encontrou quem desejasse abertamente que outro país invada, interfira, usurpe e influencie nossas decisões políticas, jurídicas e até o conceito de soberania nacional.
Não é apenas uma confusão com o 4 de julho. É um plano. Bolsonaro inaugurou uma série de bizarrices na política brasileira, mas o sentimento anti-nação foi, talvez, seu legado mais perigoso. É um princípio corrosivo, que paralisa o país, elege políticos que sabotam o Brasil e traem à luz do dia, debaixo de um céu limpo, como testemunhamos. Nos Estados Unidos, qualquer cidadão que aja de forma semelhante enfrentaria pelo menos cinco anos de prisão, multa de 10 mil dólares e, em casos extremos, até a pena de morte. E no Brasil? O que nos resta?
Sorte. Apesar de termos dispositivos legais que enquadram o crime de traição à pátria, nada substitui uma consciência crítica e uma educação de qualidade. Precisamos entender o que significa ser brasileiro, com base na história, na política e na nossa identidade cultural. Ou compreendemos e defendemos nossa soberania ou continuaremos contando mesmo é com a sorte de que nos reste, quem sabe, alguma independência para celebrar no próximo 7 de Setembro.