OPINIÃO

A qualidade precisa vencer

por Marcelo Mendes

09 de Março de 2026, 06h10

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Divulgação

O mercado eletroeletrônico brasileiro tem passado por transformações significativas nesta fase. Há diversas indústrias que têm procurado novas alternativas para produzirem com boa qualidade e maior produtividade. O problema, porém, é quando o interesse fica concentrado demasiadamente no custeio e os compradores das concessionárias de energia passam a comprar componentes notadamente do mercado chinês e sem a conexão direta com o nível de qualidade necessário.

Lamentavelmente, temos visto todos os dias nos jornais várias notícias com reclamações sobre o desempenho de algumas concessionárias distribuidoras de energia elétrica. Acreditamos que todos do segmento energético podem dar sua própria contribuição pública citando os problemas que nos deparamos em nosso dia a dia. Neste momento é preciso ficarmos atentos principalmente sobre a extrema necessidade de preservar a qualidade dos componentes usados nas concessionárias. O primeiro passo nesse sentido está na qualificação dos fornecedores e exigir os atributos especialmente aqueles previstos em como, por exemplo, o clássico padrão NBR.

O conjunto de normas do padrão NBR é um dos principais marcos nesse cenário. As normas NBR (Normas Brasileiras) são um conjunto de padrões técnicos elaborados pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Elas estabelecem requisitos, procedimentos, especificações e diretrizes para garantir a qualidade, segurança e eficiência de produtos, serviços e processos em diferentes áreas, como energia elétrica, construção civil, saúde, meio ambiente, tecnologia, entre outras.

Essas normas ajudam a padronizar e organizar práticas no Brasil, promovendo a compatibilidade entre diferentes produtos e serviços, facilitando o comércio e assegurando a conformidade com as exigências legais, sendo um compromisso da empresa com processos padronizados, melhoria contínua e rastreabilidade.

Em complemento temos a certificação ISO 9001. A norma internacional que estabelece requisitos para o Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) e que é um selo de qualidade na gestão dos processos internos.

E além da norma e certificação mencionadas, existem outras imprescindíveis e que asseguram a qualidade do produto. A ISO 14001, que estabelece requisitos para as empresas minimizarem os efeitos ambientais e fomentarem a sustentabilidade. 

As normas e certificações destacadas neste artigo são só algumas dentre diversas certificações que asseguram a confiabilidade e segurança da empresa, bem como de seus equipamentos e serviços fornecidos.

Paradoxalmente, não é raro um problema elétrico atingir o próprio consumidor final com apagões ou quedas recorrentes de energia, que é produto muitas vezes de componentes de apenas alguns centímetros. Um pequeno item, por isso, pode gerar um grande problema.

No caso dos conectores elétricos sua baixa qualidade se transforma naquele ‘elo da corrente’ rompido e resulta em sérios problemas na distribuição da corrente elétrica. Quando um conector é fabricado com material de baixa qualidade, geralmente não possui as dimensões adequadas ou está sujeito mais à oxidação, o que gera uma alta resistência de contato no dispositivo, ou seja, causa falta de fluidez no fluxo de corrente elétrica que ocorre no ponto de união entre dois condutores (conectores, disjuntores, interruptores ou relés).

O defeito mais comum e perigoso num conector ruim é o aquecimento excessivo, também, conhecido como ‘efeito Joule’. Ele ocorre quando a corrente elétrica passa por uma conexão de má qualidade, criando uma resistência que gera intenso calor. O problema acaba provocando derretimento do isolamento dos condutores e consequente danos as conexões da rede elétrica, e pode até provocar, além do prejuízo da falta de energia, incêndios em casos extremos.

Um mau contato gera calor que gera uma sobrecarga na rede e por isso desarma o sistema, ainda que o consumo de energia pelos aparelhos elétricos esteja normal. O desarme do sistema provoca quedas frequentes de eletricidade que acabam irritando qualquer usuário de energia elétrica, mesmo que seja até um monge tibetano.

Outro grande dissabor são as oscilações e a queda de tensão, mais uma dificuldade característica provocada pelo conector tecnicamente inadequado. Essa situação impede que a tensão correta chegue aos aparelhos. No caso do consumidor final elas ficam evidentes quando as luzes ficam piscando, os equipamentos funcionam vagarosamente ou até não ligam sem uma razão clara. A pessoa vai notar essas falhas naquele instante em que o forno de micro-ondas demora mais para esquentar ou quando um motor elétrico está com ruído esquisito. Para o consumidor final o prejuízo ficará mais visível ao perceber que os aparelhos eletrônicos mais sensíveis, como TV e computador, apresentam uma menor vida útil.

E não é só isso. Conexões ruins aumentam a conta no final do mês. O calor produzido por conectividade ruim é na verdade desperdício de energia. O consumidor paga pelo calor dissipado via fiação e que nunca se transformou em eletricidade ou força motriz de algum aparelho eletrodoméstico. É uma perda tanto dentro de casa, como em escritórios, comércios ou outro lugar consumidor de eletricidade.

A entrega da energia nas residências está associada à maneira adequada da aplicação dos conectores na rede elétrica. Em outras palavras, é preciso pensar na qualidade da aplicação e dos produtos conectados à rede elétrica para não ‘tomar choque no bolso’. Naturalmente, não se pode dissociar também a parte da responsabilidade do operador, mas a integridade do dispositivo é essencial e indispensável. Não adianta ter um conector admirável se o profissional não souber aplicá-lo. É um esforço de ponta a ponta: qualidade de mão de obra e produto.

Lamentavelmente, hoje em dia, há uma forte sensação de incentivo no mercado de energia elétrica apenas para a busca de materiais baratos. Dentro do segmento, existem também questionamentos de players sobre presença constante daqueles ‘clássicos’ fornecedores nos projetos. No entanto, esses reclamantes, em geral, calouros no mercado, não prestam atenção ou não observam as razões dessa ocorrência. Não fazem uma reflexão mais profunda sobre os motivos dessa presença incômoda para eles.

Os rigores de qualificação nas concorrências exigem que participem somente fornecedores que tenham alta qualidade no fornecimento. Embora o Brasil tenha uma quantidade absurda de empresas, nem todas estão preparadas ou qualificadas para o fornecimento, no grau de exigência da cadeia de suprimentos do setor elétrico. Muitas vezes aqueles players com acionistas externos não compreendem o panorama brasileiro, porque analisam apenas outros mercados e observam atentamente apenas a situação em mercados distantes por outro prisma, não enxergando qual é efetivamente a realidade brasileira.

Por aqui, ainda há muitos fornecedores de baixa categoria. Empresas que fabricam produtos sem compromisso com a qualidade, sem controle de processos, sem certificação e, portanto, não estão à altura para atender aos padrões exigidos pelo setor elétrico. Quando possuem controladores estrangeiros enfrentam desafios para compreender os detalhes, características e especificidades do mercado nacional porque só conseguem ver e entender a situação de fora.

Na China, por exemplo, há fornecedores com os mais diversos tipos de materiais. Há relatos, de dentro de distribuidoras, que ao se pedir um certificado de origem, eles ignoram a solicitação. Quando se solicita um certificado de rastreabilidade podem dizer que não têm num primeiro momento, mas no outro dia curiosamente aparecem com um certificado que foi pedido. Esse tipo de fornecedor concorre no mercado com várias empresas brasileiras que realmente investiram, se prepararam e se qualificaram durante muito tempo.

Surgiu também um novo comportamento no mercado de também tentar qualificar todo e qualquer fornecedor, porque há pressão do controlador por novos entrantes, mesmo que não necessariamente estejam qualificados para competir no processo de compras, especialmente naqueles segmentos com mais concorrentes. Muitos desses novatos, na realidade, estão competindo de uma forma desigual com os outros fornecedores brasileiros por causa das diferenças nos direitos trabalhistas e alternativas de produção mais baratas e descompromissadas.

A China, maior concorrente na produção de conectores elétricos, reconhecidamente não tem sido um país que possui uma legislação trabalhista nos mesmos moldes que existe no Brasil. Não apresenta o mesmo nível de despesas e encargos similares no trabalho assalariado. Mesmo entre aqueles fornecedores que são homologados, com capacidade técnica de fornecimento, eles efetivamente concorrerem de uma forma desleal no Brasil.

Consequentemente, são inúmeras vertentes num só grande problema para o mercado nacional. E o novo componente nessa disputa assimétrica é essa pressão dos fornecedores entrantes, sem a mínima qualificação para as necessidades locais. São concorrentes que atuam de maneira desigual e desleal. De todo modo continuaremos lutando pela presença de características essenciais no produto sem as quais não se poderia conceber a sua existência num mercado de tanta responsabilidade.

*Marcelo Mendes é gerente geral da KRJ Conexões. É economista e executivo de marketing e vendas do setor eletroeletrônico há mais de 15 anos, e com atuação em vários mercados internacionais. https://krj.com.br/