ROSANA LEITE

Vítimas do coronavírus?

por ROSANA LEITE

09 de Abril de 2020, 09h43

Rosana Leite   Imagem: Reprodução
Rosana Leite Imagem: Reprodução

Conforme já anunciado, além da pandemia, as mulheres passam por outro desafio dentro dos lares: o aumento da violência. Mundialmente tem sido divulgadas situações de violência doméstica e familiar a que elas ficaram expostas, principalmente, pelo isolamento social.

Ficar em quarentena com os seus algozes tem surtido efeito negativo ao gênero feminino. Histórias de “terror”, para além do COVID-19, acontecem. Mulheres, seus filhos e filhas, já sentem o quanto tem sido difícil o momento da quarentena, quando o ciclo da violência doméstica e familiar já habita nos lares. Sem contar aquelas que não haviam sentido estar em residências tóxicas, e que descobriram através do confinamento.  

Na Argentina, em época de coronavírus, a mídia relatou a morte de Cristina Iglesias e sua filha Ada, de apenas 7 anos, na periferia de Buenos Aires. Após o sumiço das duas, cães adestrados guiaram policiais até um poço cavado na moradia delas. Encontraram os corpos empilhados com punhaladas no pescoço. O assassino foi Romero, que vivia um relacionamento amoroso com a vítima adulta há apenas dois meses.

No Reino Unido, Geeta, contou sobre o que está passando. Segundo ela, o seu companheiro, que transporta passageiros em triciclo, viu a sua renda diminuir sendo obrigado a ficar dentro de casa. Assim, ele vem agindo com muita violência em casa, principalmente com a mulher.

O homem utiliza de bebida alcóolica com frequência, e passa a agredir a companheira, como se ela fosse a culpada das adversidades que estão vivendo. Ultimamente as agressões físicas aumentaram, sendo ela puxada e arrastada pelos cabelos em determinada ocasião. Objetos dentro da casa são atirados. Os dias estão muito difíceis para essa família.

Na Itália, o enfermeiro Antonio De Pace confessou ter matado a namorada Lorena Quaranta, que é médica. A vítima e ele trabalhavam no mesmo hospital em atendimento a infectados pelo coronavírus.

O feminicida, após cometer o delito, telefonou às autoridades policiais e comunicou ter perpetrado o crime, pois, a sua “amada” havia lhe transmitido a doença infecto contagiosa. Tentou o suicídio, mas, foi socorrido a tempo.

A mulher, médica recém formada, havia publicado texto em rede social: “Agora, mais do que nunca, precisamos demonstrar responsabilidade e amor pela vida. Vocês devem demonstrar respeito por si mesmos, suas famílias e o país. Vamos ficar todos em casa. Vamos evitar que o próximo a adoecer seja um ente querido ou nós mesmos.” A universidade na qual a médica concluiu o curso afirmou que entregará o diploma aos seus familiares como homenagem póstuma.

Mencionar esses casos de violência doméstica e familiar pode deixar a sensação de que é a enfermidade responsável pelas tragédias dentro de casa? Seria a sensação de impotência causada pela adversidade, com possibilidade de diminuição da renda mensal? Ou, será que os casais não conseguem ficar muito tempo a sós, principalmente, se são obrigados a tal?

Não. Nenhuma das perguntas acima pode justificar qualquer forma de agressão. Não é o afastamento do convívio social o responsável também. É muito mais que tudo isso. Essa violência é real de há muito. O desprezo dos homens pelas mulheres sempre foi banalizado. A questão de gênero deve estar mais uma vez em pauta, porquanto, “bate às portas” e “escancara” as mais variadas agressões e mortes delas, por conta da violência dentro e fora de casa.

O confinamento pode ter potencializado essas violências. Todavia, esses homens que se mostraram agressores nesta época, o são “in natura”.   Aliás, sempre foram. Nada poderia os fazer deixar de ser do dia para a noite. Eles apenas mostraram a face perversa do abuso e desrespeito contra elas. 

Nada justifica!

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.