PÉSSIMOS NO DISCURSO
Na votação do impeachment ouviu-se de tudo. Tudo mesmo.
18 de Abril de 2016, 09h52
Irão dizer que o texto abaixo é coisa de petista. Não é, acredite. O que está em discussão aqui é a profundidade alcançada no último domingo (17). Ou a falta dela...
Dois momentos de destaque neste fim de semana de votação e posicionamentos em Brasília. O primeiro deles o resultado, mas este já era esperado. O segundo, este sim interessante, foi a exorbitância discursiva dos nobres deputados. O que se viu na Câmara dos Deputados não foi apenas política, foi, mais que isso, um desnecessário exagero na fala.
Já de cara, mais da metade dos deputados que discursaram contra a corrupção responde a processos ou tem seu nome envolvido em esquemas criminosos. Está aí o chamado 'listão' da Odebrecht, apreendido no decorrer da Operação Lava Jato, que não nos deixa mentir. Tal fato é importante para a continuidade desta coluna, pois se refere à evidente falta de moral da maioria dos ditos combatentes da corrupção.
Durante as horas de votação nenhum deputado parece ter lembrado do próprio rabo. Eduardo Cunha, presidente que dispensa comentários, teve a coragem de estender a fala e colocar o nome de Deus no meio da salada. Pobre coitado o todo poderoso criador. Cunha falando de moralidade e fé é algo a se pensar.
Outros tantos colocaram o nome de Deus nas cabeças de seus pronunciamentos, numa espiritualidade tão real quanto nota de R$3. O saudoso da ditadura Jair Bolsonaro (PSC) entrou na onda, mas logo desviou o foco para o que mais lhe interessa. Dedicou sua fala em memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra, também chamado Dr. Tibiriçá, ex-chefe do DOI-CODI paulista e reconhecido torturador nos tempos de "caça aos comunistas".
Havia, também, um grupo, este cômico quando não trágico, de deputados que parecia estar num programa de auditório. A bandeira de seu Estado a tiracolo, a lembrança aos amigos e familiares que estavam assistindo tudo pela televisão, "Um beijo pro meu pai, pra minha mãe e um especialmente pra você...", por pouco não soltaram essa.
Nestes dois terços necessários para a abertura do processo de impedimento viu-se e ouviu-se de tudo, menos argumentos que contribuíssem a contento. Ninguém disse até agora porque confia que as chamadas "pedaladas fiscais" são consistentes o bastante para sustentar a derrubada de um presidente da República.
Ninguém aproveitou também a fala para comentar, por exemplo, porque foram contrários e articularam o engavetamento da reforma política proposta em 2013 justamente pela presidente Dilma Rousseff. Opa, aí não é pauta.
O deputado pelo PSOL Chico Alencar definiu muito bem o que foi a votação deste domingo na fala de alguns parlamentares. "39 pela família, 27 por Deus, 1 contra a troca de sexo das crianças ,1 pelo aniversário da neta/filha".
Após a votação afirmativa à abertura do processo de impedimento, o caso segue para o Senado. Por enquanto, fim de papo!