Esperando a CPMI

EXCLUSIVO: Pagot diz que Delta não está sozinha e sugere que Cachoeira tem um 'mandante'

Ex-diretor do DNIT falou com a reportagem do GazetaMT e disse estar ansioso para depor na CMPI do Congresso

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24 de Abril de 2012, 18h14

EXCLUSIVO: Pagot diz que Delta não está sozinha e sugere que Cachoeira tem um 'mandante'
EXCLUSIVO: Pagot diz que Delta não está sozinha e sugere que Cachoeira tem um 'mandante'

Pagot acredita que CPMI pode revelar conexões entre políticos, governo e empreiteirasO ex-diretor geral do DNIT, Luis Antonio Pagot, disse hoje (24) que a empresa Delta não é a única empreiteira do Brasil a utilizar políticos para obter vantagens em contratos com o Poder Público e insinuou que o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o ex-diretor da Delta, Cláudio Abreu, podem ter agido a mando de figuras mais importantes. As declarações foram feitas durante entrevista exclusiva concedida por telefone ao site Gazeta MT. Durante a entrevista ele falou também sobre a atuação da imprensa no caso, sobre o período em que comandou o DNIT e da expectativa quanto ao futuro.

Luis Antonio Pagot voltou ao noticiário no último final de semana, após a descoberta de gravações feitas pela PF onde diretores da Delta confessam que plantaram informações na imprensa para forçar a demissão dele no ano passado da direção geral do DNIT. A revista Veja chegou a publicar uma ampla reportagem acusando Pagot e outros diretores do DNIT de receberem propinas para beneficiar com contratos públicos a empresa Valec- Engenharia, Construções e Ferrovias S.A. Todos foram demitidos, mas, até hoje, as denúncias não foram confirmadas e ninguém foi preso.

"Apesar de ter feito várias declarações apontando a injustiça da situação, o Palácio do Planalto optou pelas demissões sumárias sem ouvir ninguém. Foi um momento angustiante, um período terrível na minha vida. Mas, finalmente, a verdade começou a aparecer", afirmou.

Apesar da 'redenção' representada pelos novos fatos, Pagot diz que não está feliz com a situação e que espera ansioso a convocação da CPMI que está sendo preparada pelo Congresso Nacional. Para ele, será uma chance única de esclarecer as relações existentes entre empresas privadas, classe política e o Poder Executivo.

"Está claro que existe um complô formado por políticos, altos funcionários, gente ligada ao PT e as empreiteiras. E é bom que se diga que a Delta é apenas uma delas, existem outras que agem de forma semelhante. Se a CPMI não for tumultuada e seguir seu transcurso utilizando todas as possibilidades investigativas, tudo isso virá à tona e o resultado será muito positivo - não para mim, mas para o Brasil", avalia.

Pagot disse também que não acredita que o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o ex-diretor da Delta, Cláudio Abreu, agissem por conta própria. Na opinião dele, os dois são instrumentos de pessoas ou grupos mais poderosos e que até o momento estão na obscuridade.

"Espero que na CPMI ou mesmo nas investigações a cargo da Polícia Federal a verdade apareça. Precisamos saber quem é o verdadeiro mandante, quem é o maior interessado e até que ponto o Palácio do Planalto se aproveitou disso para prejudicar o DNIT e a Valec", defende.

Veja agora outros pontos da entrevista concedida ao Gazeta MT:

Gestão no DNIT
Quando deixei o DNIT estávamos pagando cerca de R$ 1 bilhão por mês em obras e serviços por todo o país. Fizemos 1.153 contratos e ao final de 2010 recebemos vários elogios do presidente Lula pelo empenho dado às ações previstas no PAC - Plano de Aceleração do Crescimento. Para você ter uma idéia, esse valor era quase o dobro do aplicado pela Caixa Econômica Federal - o segundo órgão que mais investiu no PAC. O detalhe é que estes investimentos no DNIT foram acompanhados por um reforço inédito na fiscalização. Criamos órgãos de controle internos, instituímos novos métodos para dar mais transparência às licitações e atuamos em consonância com a Controladoria Geral da União e o Tribunal de Contas da União. Quando havia índicios de irregularidades, investigávamos com rigor. Contrariei grandes empresas e acho que foi isso que causou a fúria de alguns empreiteiros

Demissão
O Palácio do Planalto tomou a decisão sem ouvir nenhum dos acusados. Prestei depoimento na Câmara dos Deputados durante quatro horas e quarenta minutos e, depois, fui ao Senado, onde o depoimento durou quase sete horas. Respondi a 210 perguntas sobre o DNIT e os contratos firmados pelo órgão, não deixei nenhuma dúvida e fui firme na defesa do Governo e da equipe. Mas nada disso parece ter sido levado em conta pelo Planalto

Governo Federal
O Governo não pode titubear diante da 'panfletagem de revistarias de fim de semana' e sair agredindo ministros e diretores de órgãos públicos com demissão sumária. Ou o governante confia ou não confia em seus comandados. É preciso rever esse comportamento para evitar que mais pessoas sejam constrangidas. Naquele caso ficou evidenciado o meu nome, mas a verdade é que toda a equipe do DNIT se sentiu constrangida com as demissões e com a falta de apoio demonstrada pelo Planalto.

Imprensa
Acho que a imprensa deve ser livre, sem qualquer restrição para informar. Mas penso que as notícias deveriam ser produzidas com mais seriedade, com início, meio e fim. Não é correto abrir aspas para publicar denúncias de fontes anônimas, sem se preocupar em checar se aquilo é mesmo verdade. Ultimamente temos visto uma 'guerra de revistas' que a cada semana enchem as bancas com novas denúncias. Mas será que as pessoas denunciadas são inocentes ou culpadas? Até que ponto estas reportagens produzem o resultado que a sociedade espera?

O futuro
Estou pronto para ser convocado pela CPMI do Congresso e acredito que temos tudo para passar a limpo toda esta história. Espero sinceramente que o trabalho dos parlamentares seja definitivo, para que possamos sair de lá com um atestado de inocente ou de culpado. Precisamos elucidar todas as dúvidas.