Nova fase

Paulo Isaac se prepara para assumir presidência do PT e diz não temer polêmicas

Eleição será realizada no próximo domingo (10) com chapa única; futuro presidente promete ampliar democracia interna

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05 de Novembro de 2013, 08h02

Paulo Isaac se prepara para assumir presidência do PT e diz não temer polêmicas
Paulo Isaac se prepara para assumir presidência do PT e diz não temer polêmicas

Paulo Isaac quer ampliar debates e compartilhar decisões com filiados

Professor aposentado da UFMT, indigenista reconhecido e um dos mais antigos petistas do município, o antropólogo e doutor em Ciências Sociais Paulo Isaac ensaia uma 'revolução' no Partido dos Trabalhadores (PT) em Rondonópolis. Depois de uma intricada negociação interna ele se tornou o único concorrente a presidente do diretório municipal. A eleição será no próximo domingo (10), dentro do Processo de Eleições Diretas (PED) do PT, e Paulo Isaac quer aproveitar o momento para mudar a dinâmica interna e também a forma de atuação do partido junto à sociedade.

Desde o mês passado ele realiza um minucioso trabalho de levantamento de dados dos filiados ao partido. Já manteve contato com vários deles pedindo a participação nas eleições de domingo e divulgando suas propostas, em especial a que prevê maior democracia interna - com a participação de todos os filiados nas discussões e tomadas de decisões.

No último domingo (03), com o apoio da atual diretoria, Paulo Issac promoveu um debate com filiados, dirigentes e professores universitários. Abordaram questões nacionais como a Reforma Agrária e também os efeitos das alianças firmadas pelo PT em Mato Grosso e Rondonópolis. Em vários momentos vereadores, deputados e o próprio PT foram duramente criticados, situação que deve se repetir muitas vezes já que uma das propostas do futuro presidente é intensificar a realização desse tipo de evento.

Em entrevista ao site GazetaMT, Paulo Isaac admitiu que a ampliação e aprofundamento dos debates internos podem resultar em polêmicas e conflitos internos, mas não vê problemas nisso. " Minha proposta de candidatura veio justamente para isso mesmo. Para criar, não só polêmica, mas revelar as contradições que tem", afirma.

Veja abaixo os principais pontos da entrevista.

GazetaMT - Nas propostas apresentadas pelo senhor e pela chapa inscrita para compor o futuro diretório chamam a atenção a preocupação com a realização de eventos de 'formação política', como o debate realizado no último domingo. O que o senhor espera com esse trabalho?
Paulo Isaac - Uma das grandes reclamações dos filiados nestas visitas que estamos fazendo, é que não temos feito debates, formação e aí , até para provar que este será um dos enfoques nesta gestão, começamos a promover esses debates - convidando não só pessoas do PT mas, oportunamente também com pessoas que não são do partido.Queremos também trabalhar a questão da formação não apenas para o petista aprender a fazer campanha política eleitoral. A formação será também no sentido do mundo do trabalho e as questões que envolvem as relações de trabalho. E, nesse sentido, teremos formação para as pessoas de fora e para as pessoas de dentro, conjuntamente, ao mesmo tempo. Isso é importante para que o PT seja um partido que tenha uma participação maior na sociedade e compreenda toda essa confusão que se dá hoje na sociedade.

Gazeta MT - Essa discussão pode conduzir à uma 'oxigenação' política?
Paulo Isaac - Sim. Nos movimentos sociais, de um modo geral, as lideranças estão confusas. Por outro lado existe também um grande problema que é o fato de que os movimentos sociais, sindicais, comunitários estão hoje com lideranças velhas, que precisam ser renovadas. Não conseguiremos avançar sem essa renovação. Então esse discurso da mulher, do jovem na política, novas pessoas na política não pode ser apenas um discurso eleitoral. É preciso fazer esses debates sobre várias temáticas para que as pessoas despertem para essa nova realidade e construam suas próprias respostas. Porque as respostas que vêm da mídia, das autoridades são respostas 'de fora para dentro'. As pessoas precisam ter suas próprias respostas a partir de visões diferentes que vão desenvolvendo.

Gazeta MT - Esse aprofundamento da discussão também aflora as críticas internas, isso preocupa de algum modo?
Paulo Isaac - Pelo contrário. Minha proposta de candidatura veio justamente para isso mesmo. Para criar não só polêmica, mas revelar as contradições que tem. Por exemplo, o partido desde que foi criado é centrado na figura do presidente e da Comissão Executiva. Tanto é que há uma disputa dos grupos políticos para fazer parte da Executiva. E temos muitos grupos no PT, são cinco em Rondonópolis. Mas se você for pegar quais são os grupos que tem uma tese, um projeto, veremos que temos dois grupos sistematizados. Os demais são mais grupos que disputam espaço de lideranças. Nossa proposta fundamental, e que todos aceitaram, é essa. Não é muito confortável, mas tomaremos nossas deliberações no diretório, não mais só na executiva. Para fazer parte da executiva a pessoa terá de ter vontade de trabalhar para executar aquilo que o diretório decidiu. Também vamos acionar um elemento estatutário que é o encontro de delegados.

Gazeta MT - A sua gestão vai promover outras formas de participação interna?
Paulo Isaac - O debate realizado neste domingo já uma sinalização nesse sentido. Queremos também intensificar a realização dos 'Encontros de Delegados', que está previsto no estatuto do PT. Nos três anos da última gestão tivemos um único encontro de delegados e nas gestões anteriores não se tem notícia de que algum tenha sido realizado. Nós queremos que fazer que isso seja sistemático. As questões polêmicas, que o diretório não consegue solucionar ou que tem uma maior amplitude social elas terão de ser definidas em encontro de delegados. Porque isso: porque no Partido dos Trabalhadores nas cidades que tem menos de mil filiados, como é o caso de Rondonópolis, todos os filiados são delegados. Então queremos deslocar o eixo de decisões da Executiva, da presidência para o encontro de delegados e para o diretório municipal. Essa mudança é desconfortável, polêmica, expõe contradições e vai pressionar os dirigentes. Os dirigentes terão de aprender a trabalhar com situações conflituosas e muitas vezes executar coisas que eles não querem, mas que são decisões colegiadas.

Gazeta MT - E qual é a expectativa do senhor para a eleição do próximo domingo?
Paulo Isaac - Está boa, as pessoas estão animadas, motivadas com essa questão da unidade que foi construída. Por outro lado é preocupante porque não temos noção de como está a mobilização no nível mais amplo, no nível geral. São mais de 300, 400 pessoas que podem votar. Fizemos de um modo que conseguimos desmantelar aquela coisa do controle do voto fisiológico, já que, como não teremos disputa, as pessoas terão de vir por livre e espontânea vontade num domingo para votar na eleição partidária. A preocupação é se conseguiremos mesmo alcançar o quórum (120 votantes) e estamos trabalhando. Isso nos força a ter proposta, a levar essa proposta antecipadamente aos filiados, para que conheçam os candidatos e se sintam motivados a participar. Como é uma candidatura e uma chapa só, há essa necessidade de motivar mais.